Jornalistas ou artistas? Eis a questão

Luiz Augusto Macêdo

Durante o meu horário de almoço do último dia 7 de outubro, assisti ao programa Goiânia Urgente da Rede Record. Num determinado momento, a apresentadora Rachel Azeredo anunciou aos telespectadores a presença de uma equipe de estudantes do 1º ano do curso de jornalismo da Universidade Federal de Goiás. Esses estudantes estariam lá com o objetivo de ver como trabalha o repórter (?) Deco Martins. Mas será que uma pessoa que ganha a vida se aproveitando de presos que, na maioria das vezes, estão na cadeia por coisas tão banais, merece a credibilidade até de estudantes universitários?

Não é minha intenção julgar os estudantes pela sua visita ao programa Goiânia Urgente. O que quero é questionar a conduta de cidadãos que podem conhecer muito bem a realidade do povo brasileiro e aproveitam-se de situações particulares de pessoas mal educadas (educadas no sentido de desconhecerem seus direitos e negarem-se a dar a oportunidade de serem entrevistadas) e tornam-se de uma hora para outra fenômenos da televisão brasileira.

Outro exemplo disso é o apresentador Ratinho que diz trazer para o povo a "novela da vida real". Cenas de pessoas brigando, crianças doentes e outras bizarrias já fazem parte do cotidiano do brasileiro que está aprendendo a substituir o Jornal Nacional e a novela das oito por um tipo de atração que não se propõe a melhorar a sua capacidade de raciocínio (entenda que nem o Jornal Nacional é capaz de fazer isso) e que expõe a milhões de telespectadores o que há de pior no ser humano.

Esses "fenômenos" merecem crítica sim, mas não é essa a minha intenção. Quero apelar para o fato de que os mesmos se julgam profissionais de comunicação e formadores de opinião. E a qualificação dos mesmos? Nenhum deles, segundo informações de revistas e jornais, tem diploma de jornalista ou radialista e estão ocupando um espaço no mercado de trabalho que, teoricamente, seria nosso!

Não é que eles não devam aparecer na televisão. Eles são artistas que, com estratégias e conhecimentos da vida, conquistaram uma grande parte da população assim como o homem da cobra ou os repentistas conseguiram, e conseguem ainda hoje, atrair atenção de dezenas de pessoas em praças de todo o país. Agora, aceitar que os mesmos façam reportagens sensacionalistas e mereçam honras e créditos de verdadeiros profissionais da televisão, já é um pouco demais.

O fato de possuir ou não diploma universitário não indica talento, prova disso é o jornalista Boris Casoy: não possui diploma, mas apresenta telejornais de uma maneira que muitos que esquentaram banco de universidade para conseguir qualificação não conseguiram. Ele, ao menos, não tira proveito de situações individuais para se promover e não desmerece a nossa profissão, ao contrário, valoriza-a.

Já reparou que os "fenômenos" acima descritos utilizam-se da desgraça dos outros para provocar a ira dos telespectadores mas não propõem alternativas concretas para solucionar os principais problemas do país? Entenda-se por problemas: educação, saúde, previdência, judiciário, empregos e não o adultério de fulano, o estupro de beltrano ou a doença de sicrano. Se os reais problemas do Brasil fossem resolvidos, os de caráter pessoal, explorados exaustivamente, na sua maioria também seriam sanados.

Você que está estudando neste prédio confiaria seus dentes a um dentista prático que não fez um curso de odontologia? Ou a defesa de seus direitos a um advogado não registrado? Se a resposta for não, saiba que odontólogos, médicos, advogados, engenheiros e outras categorias profissionais estão lutando para verem sua profissão reconhecida. Por que nós, profissionais de rádio, televisão, jornais e revistas temos que nos curvar à supremacia de pessoas que são bons artistas e têm mais credibilidade ao lidar com informações? Essa é uma reflexão que merece ser levada adiante por nós, alunos, desde o instante que escolheremos o curso de comunicação social até o momento em que entraremos num estúdio para gravar nem que seja uma vinheta. Também deve ser discutida pelos professores e demais funcionários da universidade, que devem sempre rever os métodos utilizados no ensino e estar atentos à realidade do mercado de trabalho.

Estou fazendo o terceiro ano de Rádio e TV, prestes a entrar num mercado de trabalho competitivo e, ao mesmo tempo, desestimulante, já que não basta competir com outros profissionais. De agora em diante, temos que competir com um ou outro "fenômeno" que vai aparecer e que tomará os nossos empregos e certamente uma parte de nossas vidas onde estão depositados os nossos idealismos, os nossos anos na faculdade e as nossas aspirações profissionais.

Não estou querendo, de maneira alguma, retirá-los do ar. Há espaço para todos nos meios de comunicação, acho até que sobra. Cabe ao telespectador o direito de escolher o que quer ou não assistir. Eu só não quero me dedicar a uma profissão em que, daqui a alguns anos, eu tenha que me vestir de palhaço para ganhar credibilidade. E acredito que, assim como eu, muitos de vocês não vão querer passar por essa situação.

Luiz Augusto Macêdo é estudante do 4o. ano de radialismo da UFG.

Mande um e-mail para a direção do jornal.

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