Quem quer ser imortal?
- um questionamento sobre a lei de preservação do corpo -

Lara de Podestá Haje

Cremes anti-rugas, cirurgias plásticas, complexos vitamínicos, academias de ginásticas, produtos dietéticos. Tudo isso evidencia a extrema preocupação com o físico nas sociedades ocidentais. Curiosamente, as atenções são menos voltadas para o que o corpo é do que para o que ele pode vir a ser. Assim, faz-se ginástica para prevenir a osteoporose, evitam-se os alimentos gordurosos para prevenir o infarto, evita-se fumar para prevenir o câncer. E mesmo quem não faz essas coisas assume, com uma pontinha de culpa, que deveria estar fazendo.

A medicina preventiva ganhou, assim, um enorme destaque. As tecnologias biomédicas esforçam-se hoje para conter os problemas que possamos vir a ter no futuro e divulgam suas descobertas principalmente através dos meios de comunicação de massa. Isso pode ser constatado, por exemplo, no Jornal O Globo, de 14/11/93: A medicina dá alguns caminhos a serem trilhados por quem quer envelhecer mais tarde e com mais saúde: evitar o estresse, alimentar-se com legumes e verduras, evitar esportes competitivos, não fumar e evitar o álcool... A idéia de que nossas ações podem determinar o futuro de nosso corpo e mesmo de nossa vida é, dessa forma, amplamente difundida.

Por isso, horas e horas são despendidas na academia de ginástica e prazeres gastronômicos são evitados a fim de preservar a saúde e o corpo jovem, amenizando os efeitos da passagem do tempo. A idéia do futuro parece estar limitada a um período de deterioração do corpo e da natureza humana. O futuro passou a ser um tempo temido e que deve ser adiado. Lamentamos o que estamos deixando de ser e tememos o que podemos vir a ser. Gerimos a nossa vida para atingir o que supostamente devemos ser: sempre jovens.

Mas será que uma vida longa é realmente sinônimo de uma vida boa? Será que queremos mesmo adiar a nossa morte? Esse questionamento não costuma sequer ser levantado, pois a escolha de poder adiá-la nos escapa. De um querer-poder, virou um dever. Isso porque o poder tecnológico vai mais rápido do que nossa capacidade de o prevermos e de nossa vontade de decidirmos. As tecnologias biomédicas anunciam que algo é possível e quase imediatamente nos vemos desejando este algo ou até mesmo concebendo-o como necessário a nossa existência e nossa felicidade. Essa velocidade das pesquisas e inovações tecnológicas não se deve, então, necessariamente a uma demanda social. Muitas vezes são resultado da própria concorrência entre os centros e laboratórios de pesquisa.

Além do desejo de viver mais, outra justificativa para o excessivo cuidado com o corpo e com a saúde é, freqüentemente, querer uma velhice melhor. Mas será que essa ânsia de preservação não é a pior das velhices? O mais angustiante não será perceber que não dá para controlar o tempo apesar de todas as tentativas?

Lara de Podestá Haje é estudante do 8o. período de jornalismo da UnB.

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