Meu carrasco pensador

Melissa Rodrigues

Vocês sabem de quem estou falando...sim, ele. O inimigo número um das loiras. Dizem as más línguas que ele já levou um belo par de chifres de uma. No entanto, não há nada comprovado quanto a isso. Apesar de que, se isso for verdade, confesso que, do fundo do meu lado mais obscuro, surge um doce sorriso de satisfação em meus lábios.

Brincadeiras à parte, não vou desmerecer o pensador, já que muitos o têm como ídolo ou como "amigo". Compreendo que como cantor e compositor ele tenha grandes qualidades, e, sobretudo, dispõe de um forte senso crítico que é marca registrada em suas músicas. O porém é que algumas vezes suas composições adquirem um tom um tanto moralista e muitas vezes atingem pessoas que não têm nada a ver com seu objeto de crítica.

Pronto, cheguei onde queria chegar. É isso mesmo, a música "Lôraburra". Todos nós sabemos que ele quis criticar as mulheres que visam adquirir bens materiais às custas de seus amantes, sem estudar ou trabalhar para isso. A famosa "vida fácil". E pintou o estereótipo dessa mulher como uma morena que tinge o cabelo de loiro. E a moda pegou! A música foi um sucesso. Toda mulher loira é automaticamente burra. Perfeito!

Eu agradeço muito a ele por ter, sem mais nem menos, tornado a vida da loira insuportável. Ficou difícil até sair na rua. Realizar uma tarefa simples como ir até o terminal de ônibus virou uma penitência, pois ter que encarar as agressões verbais de um bando de garotos desocupados e - tomo emprestado essa expressão do estudante Jardel Sebba - "mal resolvidos hormonalmente", não é algo muito agradável. E eu achei isso ruim? Não, imagina. Dei graças a Deus por nunca ter sido agredida fisicamente (explico que o bairro onde morava era periférico, portanto, nenhum Bueno, nem Marista). Porém, tenho que admitir que o pensador foi muito bonzinho ao criar uma válvula de escape para morenas frustradas.

Também não posso ser injusta, o pensador deixou claro em entrevistas seu verdadeiro objeto de crítica. Mas, tarde demais. Os morenos inteligentíssimos não entenderam o recado. Criou-se mais um estereótipo, mais um preconceito, e mais um monte de piadas sem graça para a nossa coleção. O curioso é que o nosso compositor, em meio a sua genialidade, não previu que seu tiro acertaria no lugar errado. Além disso, é bom observar que sua crítica ao playboy foi bem menos depreciativa que à "Lôraburra". Claro, a burrice na mulher é sempre mais notada que no homem. Lá vem a feminista de novo! Pelo menos 90% dos homens que conheço sofrem de uma debilidade mental tão ou pior que a Carla Perez e ninguém fala nada sobre isso.

Agora eis a pergunta: que culpa tenho eu por ter nascido com cabelos loiros? Não. Pergunta errada. Devo perguntar: que culpa tenho se alguém inventa um estereótipo e todos aceitam? Não posso negar que muitas mulheres (loiras ou não) viraram objetos sexuais. O "sistemão" sempre inferiorizou a mulher; ela passou de rainha do lar a miss Brasil. Não creio que isso seja decadência. Muito menos evolução. É simplesmente andar e não sair do lugar. E deixar uma coisa bem clara: a grande maioria dos homens ainda divide as mulheres em objetos de uso doméstico e de uso sexual. Por outro lado, não acho que as mulheres que dançam e são sensuais (em especial as do "Tchan") sejam submissas aos homens nessa profissão de dançarina. Mesmo porque a banda "Cheiro de Amor" tem dois dançarinos - e como dançam! - e não me parecem submissos à vocalista da banda só porque não fazem outra coisa senão dançar. Bom, não vou prolongar o meu texto, só quero dizer que esse é um assunto a ser analisado com muito senso crítico e a menor carga de moralismo possível.

Melissa Rodrigues é estudante do 2o. ano de jornalismo da UFG.

Mande um e-mail para a direção do jornal.

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