Hipócrates e os Hipócritas
Alenor Alves Jr.
- Já se passaram doze minutos da meia-noite e os convidados da formatura (que é um rito medievo) dos futuros praticantes da medicina já estão ansiosos em suas mesas do clube Jaó. Durante o juramento, o que se diz são tarefas, missões que traçam os objetivos da prática da medicina. Isso tudo, é claro, pontuado com preceitos de ética e benevolência. Uma relação entre o que é prometido e o que realmente atrai os aspirantes ao "rentável" negócio da saúde, e entre o que se vê na prática, revela um quadro de âmbitos inconciliáveis, contrastantes. Um aluno de medicina recita em voz alta sobre socorro aos enfermos, o que conota o uso de sua capacidade, independente da grana que o paciente tem. Aliás, o paciente virou "cliente", credor de um sistema de exclusão - o das apólices, as quais beneficiam uma pequena parcela da população do Brasil (excetuando-se, é claro, os próprios segurados quando sua enfermidade não for coberta pelo "plano de saúde").
- Do lado de cá, estão os não-segurados que ficam à deriva em peregrinações pelos prontos-socorros (exagero ao usar plural) da cidade. A saúde no país poderia ser melhor gerenciada, pois impostos são arrecadados, mas as verbas destinadas (o que não quer dizer que chegam onde deviam) se perdem em administrações irresponsáveis dos chefões do país, do governo estadual e de outras esferas, círculos escusos que formam uma conjuntura nebulosa de poder e interesses. Nas demoradas filas nas quais se passam horas de espera, fica estampado o "Brasil das filas". Percebe-se nestas labutas em busca de uma consulta (que se consolida muitas vezes numa visita rápida a um médico - apressado - que lhe receitará algo, sem necessariamente resolver o problema). Esse panorama de mendicância por uma vida sem dores é bastante contrastante com o que vive e saboreia um estudante de medicina.
- Deixando claro que essa conjuntura caótica da saúde é conseqüência de problemas de cunho governamental e que a importância da medicina não é colocada em questão. Mesmo porque o médico encontra nos hospitais públicos problemas institucionalizados, às vezes ele os subtrai , às vezes ele soma. O mote de tal discussão é a relação de manufaturador e matéria-prima existente entre o médico e o paciente, nesta relação muitas vezes fria e de extrema subserviência, dependência. São situações nas quais a dúvida e a insegurança do paciente às vezes são tratadas com atitudes vexatórias, e o médico se torna, aí, negligente.
- O "doutor" que tanto se esquivou da pobreza: na porta de sua casa, nos sinais, nos colegas "ouvintes" do ambiente vip dos cursinhos, nos parentes "distantes" que ganhavam suas roupas fora de moda, nas meninas simples que foram suas alunas durante sua formação ajudada com um professorado informal noturno. Ele agora se depara frente a frente com o...
- - Qual é o seu nome mesmo?
- - O meu, seu "dotô"? É J. Pereira da Silva Brasil.
- Precisamos dos médicos, de consultas, e muito mais de diálogo, comprometimento, de medicina preventiva, melhores condições de vida, assistência médica nas escolas, saúde, sentimentos, sentidos, saudade, sal, sol, Deus...
Alenor Alves Jr. é estudante do 4o. ano de radialismo da UFG.
- Mande um e-mail para a direção do jornal.
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