Caranguejos têm cérebro?

Miguelângelo Rodrigues de Carvalho

"Antes de mais nada, salve Lúcio, Jorge, Dengue, Gilmar, Toca, Gira e Pupilo. Salve Paulo André e longa vida ao "Nação Zumbi", com seu groove imbatível, mix epidêmico e urgente de química e magia que cedo ou tarde vai varrer o mundo!"

A partir das palavras de Fred 04, autor do "Manifesto Mangue Beat", inicio minha pequena crítica ao artigo de Jardel Sebba Filho, onde este afirma, entre outras coisas, que Chico Science é lixo cultural e que tradicionalismo é o primeiro passo rumo ao fascismo.

Para começar, a mistura de ritmos criada por Chico Sciense & Nação Zumbi é algo que, em toda a história da música mundial, jamais se ouviu falar. Você é carioca e, com certeza, não precisa gostar de bumba-meu-boi ou maracatu, mas há de convir que misturar algo da cultura tradicional pernambucana ao bom e velho rock'n'roll é algo, no mínimo, original e, a meu ver, genial.

Recife não é aqui, mas somos brasileiros, fazemos parte de um país multicultural e temos que nos orgulhar disso e apreciar o que é bom. Duvido que, em toda sua vida, você jamais tenha ido a um desfile de escola de samba no Rio de Janeiro; renegar o tradicional é renegar a própria cultura nacional.

Não sei se Chico Sciense era um poeta, mas acredito que em versos como: "A cidade não pára, a cidade só cresce; o de cima sobe e o de baixo desce" e "me organizando posso desorganizar", existe algum tipo de crítica social, não acha?

É impossível se comparar a Jovem Guarda ao Mangue Beat, é o mesmo que comparar Legião Urbana com "É o Tchan". Pra quem não sabe, Recife foi por dez anos campeã nacional do desemprego e da inflação no país, e o Mangue Beat tentou dar alguma diversão ao pessoal dessa cidade.

Surgiram manifestações artísticas por todos os lados; estilistas independentes, novas bandas, movimentos comunitários como o "Daruê Malungo" e a renovação do "Alto José do Pinho", programas de rádio como o Mangue Beat, que "ocupa, há dois anos, os primeiros lugares de audiência, tocando fitas demo e lançamentos locais (...)", além de cineastas pernambucanos que estrearam o longa metragem "O Baile Perfumado", que recebeu vários prêmios contando com a trilha sonora de bandas Mangue. Será tudo isso lixo cultural? Não, amigo, caranguejos têm cérebro.

Falaria ainda mais sobre tudo isso, mas o espaço é um pouco restrito para se fazerem todas as argumentações necessárias; no mais: Viva Zapata, viva Chico Science, vivam Zumbi, Antônio Conselheiro, Lampião sua imagem e semelhança, vivam os atores e gênios pernambucanos, viva o Cinema Nacional e todos que para ele contribuem, eu tenho certeza, eles também cantaram um dia...

* Texto baseado no Manifesto Mangue 2, por Fred 04, e na obra de Francisco de Assis França (Chico Science).

Miguelângelo Rodrigues de Carvalho é estudante do 2o. ano de radialismo da UFG.

Mande um e-mail para a direção do jornal.

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