"Que pena, professor"

Marco Aurélio Vigário

Mexendo em algumas revistas antigas, vem à minha mão uma "Veja", de maio de 1997. Na capa, em primeiro plano, está a foto do então ministro das Comunicações, Sérgio Motta, e, em sobreposição, as seguintes palavras: "Reeleição - a compra de votos no Congresso". Na verdade, essa revista não veio parar na minha mão por acaso. Era justamente a que procurava.

Decidida a eleição para presidente da República, algumas dúvidas, que surgiram durante a campanha, continuam sem solução. Por que um dos maiores escândalos da história recente do Brasil foi deixado de lado? Será que todo mundo já se esqueceu (e quando digo todo mundo, devo destacar o PT)? Na época, mesmo a "Veja", governista acima de tudo, dava as suas espetadas: "(...) Fernando Henrique colocou Serjão na vanguarda da batalha pela reeleição, e o governo entrou numa nova fase, bem menos luminosa". Roberto Pompeu de Toledo, num ensaio magnífico, estava queixoso: "(...) Como pôde isso acontecer? (...) Que pena, professor. Não era para acontecer, no seu governo". Toledo não parava por aí, exclamando: "(...) Que prato para as oposições! Que maçada, ter de explicar-se eternamente."

Mas que nada, meu caro! Como podemos ver hoje, o senhor estava totalmente enganado. Como mostra a revista, o professor abafou o caso na imprensa, que parece não ter esboçado resistência, simplesmente nomeando o senador Iris Rezende e o deputado Eliseu Padilha, ambos do PMDB, para os ministérios da Justiça e dos Transportes, respectivamente. Fernando Henrique guardava no bolso já há três meses essas nomeações e soube fazê-las na hora certa. Os dois fiéis escudeiros, por sua vez, trataram logo de se articular para evitar uma CPI.

Muitos foram os envolvidos nesse episódio. Alguns deputados, alguns senadores, alguns ministros e empreiteiras estavam juntos numa jogada em que não havia perdedores. A troca era simples: de um lado, queria-se dinheiro, mas só havia votos; do outro, tinha-se dinheiro (em forma de verba para construção de estradas e concessões de rádio), mas se queria votos. Por isso mesmo, o entendimento não deve ter sido difícil. Acima de todos, porém, estavam os maiores beneficiados, o presidente Fernando Henrique Cardoso e seus aliados, que queriam o poder. O único risco era o vazamento de informações, fazendo com que os envolvidos sofressem, no mínimo, um violento desgaste político. Pois bem, cobremos o mínimo, aonde está o desgaste?

Conseguindo uma sobrevida política, parece bastar uma pitada de marketing para tudo voltar ao normal. No Amazonas, Amazonino Mendes disputa agora o segundo turno, mesmo depois de estar diretamente envolvido no escândalo da reeleição, além de ter sido recentemente denunciado no programa "Fogo Cruzado" por compra de votos. Já em maio de 1997, o governador era premiado por "Veja" com uma foto, na referida matéria, acompanhada da seguinte legenda: "Mendes: 'Corrupto e corruptor'". Por incrível que pareça, nem isso parece ter sensibilizado os seus eleitores. Mais proveitoso do que pensar nas razões da sobrevivência de um político como esse, é pensar que essa realidade está também perto de nós.

Apesar de tudo o que aconteceu nas últimas semanas, se tem uma coisa que eu sempre vou me lembrar, quando pensar nessas eleições presidenciais, vai ser da expressão da atriz Regina Duarte, no "Boa Tarde", Brasil, do programa eleitoral de Fernando Henrique. Ali, ela repetiu várias vezes, com a maior convicção possível: "O que eu mais admiro no Presidente é a transparência!" E cada vez que repetia, a imagem da capa da revista vinha à minha mente e, juntamente com ela, vinham as palavras do ensaísta: "Que pena, professor."

Marco Aurélio Vigário é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.

Mande um e-mail para Marco Aurélio Vigário ou para a direção do jornal.

Primeira - Anterior - Próxima - Última

© 1997 1998 1999 Jornal Integração Todos os direitos reservados
1