Depuração de cidadania, um extremo enclausurado

Priscilla Amaral

Onde está? Onde se refugiou o senso de cidadania do povo brasileiro? Pergunta esta, que talvez muitos tenham feito ao saírem às ruas no dia 4 de outubro e se depararem com algumas (para não dizer a grande maioria) feições apáticas, desentusiasmadas e até alienadas. Dia este que se resume a um grupo de poucos, em que cada indivíduo do nosso país seja tão importante. Mesmo aqueles esquecidos em seus bolsões de miséria, aqueles do anonimato, confinados em seus "habitats inacessíveis".

É deprimente, contudo a realidade é crucial, é cruel. A grande maioria nem sequer fazia questão de esconder tamanha indiferença diante do que iriam realizar a alguns minutos: Votar! Decidir o futuro da sua nação e, consequentemente, da sua própria vida.

O voto é o símbolo da esperança existente em cada um e não uma banalidade que sobrevive nas imediações da conveniência e da obrigação. As pessoas pareciam estar indo a um sacrilégio e não às urnas. E que importância tem isso? Embora não pareça perceptível, tem muita! As urnas são meros veículos, porém "condutores das esperanças". Em que, em quem? Em nosso Brasil (pelo menos teoricamente, pois a cada dia ele deixa um pouquinho de ser nosso, deixa de ser "nacional"). Não basta? Tudo bem. Vamos ser mais restritos e individualistas em nossa vida, se é que ela tem importância singularmente.

Será que nós, brasileiros, por estarmos martirizados e incrédulos da nossa política e dos nossos governantes, devemos também tornar-nos desesperançosos? Meu Deus! Cadê aquela garra, aquela força que surgiu no período militar? Será que todo aquele envolvimento político, aquela luta dolorosa, aquela luta de amor pelo nosso país, "o grande Brasil, celeiro do mundo", caiu no abismo do esquecimento? Ou, melhor dizendo, ficou retratada apenas na memória dos nossos pais e nos livros de história? E a juventude que tanto participou, sofreu, lutou "para mudar o mundo"? Aquela, das "diretas já", será que hoje deixou-se dominar completamente pela globalização, pelo instinto individual, pelos interesses privados que resultam nos modismos, consumismos e outras futilidades a tal ponto de se esquecerem de seu papel de cidadãos, de perderem sua força de lutar por dias melhores?

A estagnação não pode continuar, já dizia o filósofo grego Aristóteles que o homem é um ser político nato. E ser político não é apenas o dom de governar povos e nações, é participar e se envolver com os interesses dessa nação, é contribuir de alguma forma para melhorar a vida, mas não somente a individual; melhorar também a coletiva. Pois viver (honradamente), é melhor que sonhar, e para viver é preciso entrar em ação.

O sonho apenas nos acomoda, e, acomodados, afrontamos nossa dignidade. Dignidade esta que se abala quando vemos centenas de pessoas trabalharem em campanhas políticas de quem ao menos ouviram falar ou acreditam, o que é pior, somente por fins lucrativos, e não por defesa de uma causa, de um ideal. Que crise é essa, que faz com que esqueçamos nossas opiniões e valores?

Já não podemos mais dar vazão à inércia. Para isso é preciso primeiro nos descobrirmos como cidadãos, só que, de nós mesmos.

Priscilla Amaral é estudante do 2o. ano de jornalismo da UFG.

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