Ratinho, Leão e o efeito Enéas
Luís Cláudio Guedes
- É difícil resistir à mórbida curiosidade que mora dentro de cada um de nós. Resultado: por mais que a gente discorde daquilo que a TV nos oferece no horário nobre, não dá para não ver quais são as peripécias que o apresentador Carlos "Ratinho" Massa anda aprontando no vídeo. Haja miséria. Ratinho é o mais novo fenômeno televisivo do país. O roedor mais famoso do Brasil ganha a invejável cifra de 1 milhão de reais por mês.
- É chato à beça, mas tenho que admitir: eu vejo o "Programa do Ratinho" e, de quebra, a sua imitação e sucessor na TV Record, um tal "Leão Livre", apresentado pelo ex-radialista Gilberto Barros, o Leão (200 mil reais por mês). Vai ver eu sempre fui brega e não sabia. Mas não é só isso. Como estudante de comunicação, preciso estar antenado com estes "fenômenos" da mídia. A constatação a que se chega é assustadora. A programação que as TVs oferecem aos seus telespectadores parece ter chegado ao fundo do poço.
- Vamos, confessa, caro leitor, você também costuma dar uma espiadinha neste zoológico eletrônico. A desgraça alheia exerce um forte fascínio sobre o nosso inconsciente. Na TV, o clima de espetáculo ameniza a gravidade dos dramas apresentados e a tragédia vira coisa banal.
- Na guerra pela audiência, as novas feras da comunicação brasileira fazem desfilar um circo de horrores, onde o bizarro e o exótico servem como isca para fidelizar o olhar curioso do telespectador. Tem de tudo nesta briga animal. Um homem que teve o pênis devorado por um porco, uma menina com três cabeças, um garoto fumando crack no centro de São Paulo, o marido traído exibindo um vídeo que flagra a sua mulher com outro homem e outras excentricidades do gênero.
- Entre uma cena e outra deste mundo cão, tome proselitismo dos apresentadores. Leão chora diante das câmaras após a exibição de cada caso, enquanto Ratinho ameaça autoridades e bandidos, sem distinção, chamando para si a defesa dos pobres e oprimidos. Pobres e esquecidos existem com fartura neste país onde o Estado é omisso no cumprimento do seu papel. Não há Ratinho que dê conta. Para ele, contudo, isto não vem muito ao caso. Seu assistencialismo escolhe com cuidado um ou outro caso dentre as centenas de desesperados que todo santo dia batem às portas da sua produção. Só têm chance de ir para o ar aquelas histórias esquisitas o suficiente para ganhar da TV Globo, momento em que o apresentador interrompe a "atração" para dançar ao som da música tema do Jornal Nacional.
- É o fim da picada? Talvez não. Para os estudiosos, esta fórmula que mistura o grotesco aliado a uma suposta ajuda aos mais necessitados tende a se desgastar com o tempo. Segundo o sociólogo Antônio Flávio Pierucci, professor da USP, é provável que aconteça com Leão e Ratinho o mesmo que aconteceu com o candidato Enéas Carneiro, do Prona. Enéas chamou a atenção enquanto foi novidade. "O bizarro tende a enjoar", disse Pierucci em entrevista à revista Época. Os 2 por cento que Enéas obteve nessa campanha eleitoral confirmam a tese. Ufa! Existe uma luz no fim do túnel. Enquanto o enfado não acontece, o controle remoto é o nosso aliado neste exercício masoquista de ver quem é o pior na TV brasileira. Os bichos das emissoras paulistas são apenas o lado mais visível desta péssima fase que atravessa a TV nossa de cada dia. Gugu Liberato, Fausto Silva, Márcia e Magdalena também dão a sua colaboração neste show de mau gosto. Pieguice e pouca criatividade sobram nestes programas. Que venha logo o efeito Enéas.
Luís Cláudio Guedes é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.
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