Um brasileiro chamado Chatô

Luís Cláudio Guedes

Acaso me pedissem para apontar o nome de um brasileiro que foi destaque neste Século, eu não hesitaria em citar o nome do jornalista Assis Chateaubriand. Personagem instigante e controvertida, sua vida e obra foram retratadas no livro "Chatô, o Rei do Brasil", do também jornalista Fernando de Morais (Cia. Das Letras. São Paulo, 1994).

Francisco Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, o Chatô, nasceu em Umbuzeiro (PA), em outubro de 1892. Morais narra a trajetória do menino gago, raquítico e endiabrado que se tornaria, tempos depois, proprietário do maior conglomerado de comunicação do país até os anos 70, os Diários Associados.

No auge de seu império, Chateaubriand chegou a possuir 34 jornais, 25 emissoras de rádio, 18 televisões, 2 agências de notícias e 18 revistas, dentre elas o estrondoso sucesso de "O Cruzeiro". O polêmico Dr. Assis foi um caso desta espécie rara de homens que parecem resumir no espaço de uma vida inúmeras existências. Sua fama ganhou mundo, colocando-o em contato direto com reis, rainhas, presidentes e celebridades do seu tempo.

São realizações deste nordestino teimoso, por exemplo, a instalação da primeira emissora de TV no Brasil, a Tupi de São Paulo, em 1949, e a luta obstinada para adquirir o acervo do Museu de Arte de São Paulo (MASP), orientado pelo italiano Pietro Maria Bardi. Tanto no caso do MASP quanto no da Campanha Nacional da Aviação, quando foram doados cerca de 2 mil aviões para aeroclubes país afora, a conta dos delírios do Chatô sobrava sempre para a abastada burguesia da época. Ele conseguia despertar, pelo temor que os Diários impunham em qualquer desafeto, a filantropia e o pendor de Mecenas da elite de então. Em não raras ocasiões, como na Campanha da Aviação, Chateaubriand foi acusado de tirar proveito destas empreitadas.

A imprensa internacional o comparou ao magnata da comunicação americana William Randolfh Hearst, inspiração para o filme "Cidadão Kane", de Orson Wells. Um trocadilho do jornalista Moacir Werneck de Castro em artigo publicado em 1946 no jornal "Tribuna Popular" fez troça desta comparação ao insinuar que Chatô era mais mercenário do que mecenas: "...Na verdade (ele) não quer cruzada, quer cruzeiros, milhões de cruzeiros".

Ao longe do livro, Morais mostra como foi pendular a relação do jornalista com o poder. Com Getúlio Vargas, por exemplo, Chatô sempre manteve uma relação tempestuosa. De aguerrido militante na Revolução de Trinta, ele passaria à condição de perseguido dois anos depois, quando Getúlio tentou deportá-lo para o Japão. Chatô foi preso em várias ocasiões na chamada "Era Vargas" e chegou a perder o controle de um dos seus veículos, o "O Jornal", para recuperá-lo mais adiante quando reataria relações com o ditador. Sobre Getúlio, Chateaubriand escreveu certa feita: "Maquiavel é pinto perto dele". Aos ouvidos que esperavam uma frase de efeito sua ao saber do suicídio de Vargas, Chatô foi surpreendente: "Sou candidato à cadeira dele na Academia Brasileira de Letras". Dito e feito.

Com o argumento de que necessitava de uma tribuna pública para defender "Os Associados", Chateaubriand foi eleito duas vezes senador da República em manobras suspeitíssimas que tiveram a aquiescência dos presidentes de plantão, Vargas e depois Eurico Dutra. De Juscelino Kubistchek, ele conseguiu uma indicação para ocupar o posto de embaixador do Brasil junto à Inglaterra. O severo serviço diplomático britânico conheceu um dos mais exóticos embaixadores da sua História.

Há muito mais o que falar sobre a vida daquele menino nordestino, inclusive da longa agonia provocada pela trombose que o vitimou em 1960, deixando-o tetraplégico (ele morreria 8 anos depois, em abril de 68, de colapso cardíaco). Como o espaço deste artigo é limitado, chamo a atenção do leitor para o fato de que "Chatô, o Rei do Brasil" nos mostra detalhes curiosos da vida brasileira ao longo das décadas que durou o reinado deste incrível brasileiro, que nenhum livro de História se dispõe a mostrar.

P.S.: A presente edição marca um ano de existência do INTEGRAÇÃO. Faço um brinde ao sucesso alcançado pelo jornal e, sobretudo, à perseverança de seus mentores, os estudantes do atual 2º ano de jornalismo. Costumo chamá-los de "Chateaubriandzinhos", numa amistosa brincadeira sobre o fato deles serem os fundadores do jornal. Chatô, o Rei, espalhou jornais no Brasil inteiro. Sem entrar no mérito do uso que ele fazia deles, quero dizer da admiração que tenho por aqueles que deixam jornais em seu caminho. Tais pessoas dão imensa contribuição à circulação das idéias, necessidade tão cara ao gênero humano. Neste sentido, o INTEGRAÇÃO começou muito bem.

Luís Cláudio Guedes é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG

Mande um e-mail para Luís Cláudio Guedes ou para a direção do jornal.

Primeira - Anterior - Próxima - Última

© 1997 1998 1999 Jornal Integração Todos os direitos reservados
1