A difícil arte de ser mulher
Melissa Cristina Rodrigues
- Bom, nascer mulher já é difícil desde os primeiros meses de vida, quando a grande maioria dos pais aproveita para furar as "orelhinhas" das filhas para colocar "brinquinho". Já ao sair do hospital a criança é exposta aos estereótipos, o quarto é cor-de-rosa, o bercinho é amarelinho, o enxoval... nem se fala. Vem os primeiros anos de vida e os pais enchem o quarto da menina com "bonequinhas", nana-neném, meu-bebê, palhacinhos... Se ela gosta de carrinhos, ah não, nem pensar, isso é coisa de menino. É isso aí, democracia começa em casa, afinal é desde pequeno que se torce o pepino, não é? Ela adora jogar bola com os meninos. O que é isso? Ah, pode parar, minha filha não vai virar sapatão não. Além do mais, ela é menina, e meninas são frágeis, e os meninos podem machucá-la. Os meninos são sempre mais violentos, o que mostra que a sociedade está educando muito bem seus "machinhos". Esse comportamento demonstra como o homem é, desde cedo, muito mais racional do que a mulher. Afinal, qual é o homem que nunca levou um "chazão"(desculpem-me, essa palavra em curitibanês significa "chá de cuecas")?
- Pronto, agora entramos na adolescência e aí a coisa complica. Os pais sempre ignoram que nessa fase de mudanças, as filhas podem, eventualmente, se interessar pelo sexo oposto (apesar de isso ser tão óbvio). A jovem "donzela" só pode sair se for na casa da amiga e sem que o pai sequer sonhe que possa haver alguma presença masculina na turma de amigas da filha. A jovem vai ficando mais velha e não há mais como negar que ela é uma mulher. Ela arranja um namorado... ai, ai, ai... Namoro só se for na sala, junto do pai e da mãe, de mãozinhas dadas, bem comportadinhos. Nessa fase, o namoro já é considerado um pré-casamento, então é sempre necessário ministrar doses diárias de pudoríada na "ingênuadonzelaindefesa". Palestras caseiras sobre gravidez, aborto, etc, sempre metendo a maior quantidade de grilos e medos na pobre cabecinha da jovem... Sair à noite é perigoso, não só pela violência, mas pelo risco da garota perder a sua dignidade, a qual se localiza no meio das pernas, tanto para a mulher quanto para o homem, só que em sentidos opostos. Isso tem que ser deixado bem claro. Se ela deixar de ser, ela vai virar uma mulher fácil, da vida, mal falada. A mulher nunca faz amor, ela dá para o homem. O homem nunca faz amor, ele come a mulher (quem vê pensa que somos antrópofagos, ou mesmo carniçais, ou canibais). Sempre que houver uma tentação de enxergar o sexo como uma coisa natural, vale a interrogativa: Mas o que os outros vão pensar? O que os outros vão dizer? Se a jovem é de peitar o pai, as ameaças são permitidas e até mesmo bater no popô. Onde já se viu, uma filha pensar diferente do pai? Ora essa! Sair daqui por diante, só com a presença de um segurança e um fiscal (pai e irmão). Fora o resto do tempo em que todos a vigiam, pais, irmãos, vizinhos, tios, primos... E quando ela pensa que sua vida está virando um inferno, sempre tem uma avó ou um avô para complementar: dizer que sexo é sujo, é a tentação, são as portas do inferno se abrindo para ela. É pecado, é pecado, é pecado...
- Quem pensa que isso acabou, ih, tem mais. Não dizem que o feminino de "ele sentado assistindo TV" é "ela em pé lavando a louça"? Pois é isso mesmo. Todos comem mas o dever de fazer comida e lavar a louça é dela. Todos sujam, mas quem tem que limpar é ela. E se ela não faz o serviço direito? Ou detesta serviços domésticos? Ah, é severamente punida. É discriminada e mal falada por toda a família e parentes. As conversas babacas de madames, por exemplo: "A filha da fulana não faz nada em casa, a minha sabe fazer de tudo". Quando a mulher questiona essa sociedade, inclusive com outras mulheres que aceitam as imposições passivamente, ela ouve a política do conformismo. "A sociedade é assim, e temos que aceitá-la".
- Realmente, começar a mudar essa sociedade machista, preconceituosa e hipócrita, é trabalhoso e causa muitos aborrecimentos. Existem coisas que estão além de nossas forças. No trânsito, por exemplo, qualquer besteira, ah, tinha que ser mulher. Homem nunca faz besteira, imagina. Os seguros de automóveis dão belos descontos para mulheres, não sei por quê. Deve ser cantada, é claro. Falando nisso, é bom lembrar que ao andar na rua descubro que os homens parecem tão desesperados por um corpo feminino que vivem mendingando nossa atenção. É impossível andar um quarteirão e não receber meia dúzia de cantadas grosseiras. Qual é a mulher que nunca se sentiu um frango assado passeando no meio da cachorrada. A maioria das mulheres nem se dá ao trabalho de olhar, tão acostumadas... Olha lá, ela não é uma mulher, ela é uma bucetambulante. Fora que uma das coisas também que temos de engolir desde pequenas é os homens se gabando do fato de sua força bruta ser maior que a nossa (eu bem que gostaria de ver se um homem agüentaria a dor de um parto ou perder sangue todos os meses). Repito, ter orgulho da força bruta reforça o fato do homem ser tão racional. E contra isso é difícil lutar. Nunca vou ser tão forte quanto a maioria dos homens é.
- Ainda assim, posso dizer que sou uma privilegiada. Pois felizmente não pertenço à imensa massa de mulheres no mundo inteiro que são abusadas desde meninas pelos pais e padrastos, que são tidas como objetos, que são brutalmente violentadas a cada minuto no Brasil, que são atacadas por algum "maníaco do parque", que são obrigadas a andar com os rostos cobertos, ou tem o seu hímen perfurado por um dedo envolto em um pedaço de pano (ciganos quando se casam), ou têm o seu hímem leiloado, ou são vendidas como gado por duzentos reais (isso com muita sorte), ou tem o seu órgão genital fatalmente retirado com uma gilete suja (dessas, poucas sobrevivem para contar esse horror). O homem é o único animal racional, isso todos aprendemos na escola. Mas se a grande maioria das sociedades no mundo inteiro é machista, inclusive a nossa, então quem governa é a força bruta, juntamente com o conformismo. Talvez um dia alguém queira governar para seres humanos.
Melissa Cristina Rodrigues é estudante do 2o. ano de jornalismo da UFG.
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