Mal Menor
Jardel Sebba Filho
- "A maior pena que eu tenho, punhal de prata, não é de me ver morrendo, mas de saber quem me mata" – Cecília Meireles
- Cada vez que acendo um cigarro, milhares de substâncias tóxicas invadem meu organismo. A respiração fica ofegante, o fôlego diminui e a garganta se deteriora. Cada vez que acendo um cigarro, alguém me lembra que vou morrer. Gostaria muito de conhecer alguém que não vai. Eu sei, o cigarro mata.
- Mas, e as vezes em que me deparo com a dúvida de voltar para um lugar que já não me reconhece ou ficar em outro que sempre me será estrangeiro? Indecisão mata. E os sábados à noite em que o telefone não tocou, e que eu não tive ninguém para sair comigo? Solidão mata. E quando, na empolgação da hora, disse que abriria mão de qualquer coisa para ficar com ela, e ela se assustou? Amar uma mulher mata – e é uma perda de tempo. E quando não consegui dizer para alguém o que sentia? Timidez mata. E quando fui, tantas vezes, ridículo, caricato, tentando impressionar alguém, fingindo ser o que não era? Insegurança mata. E nas vezes em que precisei apontar caminhos novos, romper com o passado, correr riscos, e não tive coragem? Covardia mata. E quando todas as pessoas que tornam minha vida menos infeliz sumirem no rastro implacável do tempo? Angústia mata. E se eu casar, tiver filhos, morrer, e isso for tudo? Falta de perspectiva de vida mata.
- Assim sendo, gostaria de convocar os anti-tabagistas para que se manifestem em todos os momentos em que minha capacidade de me matar aos poucos se faz presente. Muita gente morre por causa do cigarro. Mas, como dizia Saul Bellow, prêmio Nobel de literatura, muito mais gente morre de coração partido e ninguém toma uma providência.
Jardel Sebba Filho é acadêmico do 4o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para Jardel Sebba Filho ou para a direção do jornal.
Primeira -
Anterior -
Próxima -
Última
© 1997 1998 1999 Jornal Integração Todos os direitos reservados
|