Simples Objetos

Giodano Maçaranduba

A Amélia, da canção do mesmo nome, e as mulheres M. Officer tem uma semelhança crucial: são objetos. A Amélia é um robô doméstico, ao passo que a mulher M. Officer é um manequim automatizado que vem com controle remoto para teleguiá-la à distância.

Tanto na mulher da canção de Ataulfo Alves e Mário Lago quanto nas mulheres que Marcelo Rubens Paiva critica há um modelo de sociedade que as rebaixa à situações inumanas. Situações essas que as escravizam. A Amélia é uma máquina para atividades caseiras, as mulheres M. Officer são manequins que se movimentam.

Essas mulheres são escravas porque lhes é reservado a tarefa de demonstrar o corpo para que se venda produtos ou lhe é reservado o lugar de lava-louças, máquina de lavar roupa, secadora, fogão automático, ou seja, o lugar de máquinas. As máquinas são escravas porque não manifestam atitudes próprias, quer dizer, atitudes elaboradas por si mesmas.

Embora as duas sejam parecidas, a mulher M. Officer é uma Amélia sofisticada. Com o tempo e crescente conscientização da mulher, a sociedade foi procurando novos meios de escravizá-la, não que as Amélias tenham desaparecido - na verdade ainda são a maioria - mas tendem a desaparecer. Esse processo de sofisticação culminou na escravização quase imperceptível das mulheres M. Officer. Essas mulheres pensam ser modelos bem pagas mas não percebem que, na verdade, são apenas ótimas vitrines de exposição de produtos.

Enfim, essas mulheres são as que mais violam a liberdade de pensamento delas sobre elas mesmas e o mundo. São cegas que entram numa cela e se trancam pensando que saíram da cadeia. Acham que estão em liberdade e passam a vida toda lá com a total certeza disso.

Giodano Maçaranduba é acadêmico do 4o. ano de jornalismo da UFG.

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