Sexo, classe média e hipocrisia
Eduardo Horácio Jr.
- "Pesquisa do Datafolha revelou que 84,1% da população é a favor de algum tipo de controle das cenas de violência e sexo nos canais abertos Mas a maioria é contrária a mecanismos que controlem as transmissões por cabo." - Folha de S. Paulo, 20/10/96
- Sempre fico comovido quando vejo debates sobre sexo na TV. É uma concentração de hipocrisias incomparável.
- Dizem que as cenas são abusivas e vulgares. Os alvos preferidos de agora são Gugu e Faustão, apresentadores rivais das tardes de domingo.
- Carla Perez, dençarina do grupo "É o Tchan", então, é a campeã de censuras por parte de nossos "moralistas". Acabado o debate, vão para casa assistir aos seus canais por assinatura.
- Ligam no "Sexytime" ou no "canal adulto". Depois desses programas vão para a cama e no dia seguinte voltam a censurar a dançarina do "tchan".
- Se a TV a cabo não agrada, correm até a "Blockbuster" e pegam "Instinto Selvagem" para ver Sharon Stone abrindo e cruzando as pernas em pleno interrogatório policial. "Boa atuação da Sharon", costumam dizer.
- Mas se ligam a TV no domingo e assistem ao de sempre, logo criticam: "Que coisa vulgar!".
- Essa revolta crescente tem uma explicação simples: a classe média odeia que aquilo que ela gosta seja popular. Ela ambiciona exclusividade.
- Os programas dominicais acabam democratizando o sexo (embora não tivessem esse objetivo) e isso deixa os supostos moralistas indignados. Democracia não combina com classe média.
- O que ela gosta que todo mundo veja são mensagens do tipo: "FHC é um grande estadista.", "a oposição só atrapalha" e "os sem-terra só querem baderna".
- A classe média estranha o que o papa repete toda hora! "Segurar o tchan", "amarrar o tchan" e "esperar nove meses pelo resultado" é o mesmo que dizer "não se esqueça: o sexo foi feito para reprodução".
- Concordo: o que se mostra apenas reforça a reificação do corpo feminino. Mas o que deixa a classe média irada é essa democratização do sexo na TV. Por que ela é contra o sexo na televisão aberta e na fechada é a favor?
- Parece que estão querendo criar uma nova minoria social, aquela que não tem acesso ao sexo na televisão. Como se já não tivéssemos minorias demais.
- Paulo Francis dizia que "ser da classe média é fingir que acha Godard o máximo". eu acrescentaria "fingir que odeia ver sexo na TV".
Eduardo Horácio Jr. é acadêmico do 3o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para Eduardo Horácio Jr. ou para a direção do jornal.
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