A globalização é inevitável
Jorge Alves Safatle
- Circunstancialmente, a convergência aos mercados mundiais, a estruturação das redes inter-empresariais a nova ordem global e fraturada, resultam na implantação paulatina de um novo paradigma técnico-econômico repercutindo na hierarquia relativa dos produtos e das nações.
- E no curso das últimas décadas, em decorrência do monetarismo e de uma estrutura financeira baseada no mercado de capitais, da livre troca comercial, do livre fluxo de capital e das privatizações massivas, o poder decisório da esfera pública se transfere para a esfera privada.
- A primeira pessoa a utilizar o termo globalização, foi Ignácio Ramonet, prestigiado articulista do Le Monde Diplomatique, apresentamos o mesmo, que em debate com o Financial Times sobre o tema da mundialização, afirma:
- A este regime sucede, neste fim de século, um outro tipo de totalitarismo, os "regimes globalitários". Repousando sobre os dogmas da globalização e do pensamento único, não se admitindo nenhuma outra política econômica, subordinando os direitos sociais dos cidadãos à razão competitiva, e deixando aos mercados financeiros a direção total das atividades da sociedade dominada.
- Nas nossas sociedades desnorteadas, não se ignora a potência desse novo totalitarismo. Segundo recente pesquisa de opinião, 64% das pessoas abordadas estimam que são os mercados financeiros os que mais possuem poder na França hoje. Após a economia agrária que prevaleceu por milênios, após a economia industrial que marcou os séculos XIX e XX, estamos entrando na era da economia financeira gobal.
- A mundialização matou o mercado nacional, constituidor de um dos fundamentos do Estado-nação. Deixou o capitalismo nacional largamente obsoleto, diminuindo seu papel de poder público. Os estados não têm mais a capacidade de se opor ao mercado. O volume das reservas dos bancos centrais é ridiculamente fraco frente ao poder de fogo dos especuladores.
- Os Estados não dispôem mais dos meios para frear os fluxos formidáveis de capital, nem para conter a ação dos mercados contra seus interesses e os dos cidadãos. Os governantes se dobram aos mandos da política econômica definida por organismos mundiais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, ou o OCDE. Na Europa, os célebres critérios de convergência estabelecidos pelo Tratado de Maastricht (déficit orçamentário, endividamento público reduzido e inflação contida) exercem uma verdadeira ditadura sobre a política dos Estados, fragilizando a democracia e agravando o sofrimento social.
- Se dirigentes afirmam crer na autonomia política - "Nós não estamos com mãos e pés amarrados a um mundo que nos foi imposto", certamente afirmam -, sua vontade de resistir é um blefe, pois chegaram imediatamente à constatação: "A situação internacional é caracterizada pela livre circulação de capitais e produtos, que se chama mundialização." E reclamam, com insistência, dos "esforços de adaptação" a esta situação. Em tal circunstância, quem poderia se adaptar? Todos simplesmente admitem a supremacia dos mercados e a impotência dos homens políticos.
- Tal é a lógica desses regimes globalitários. No curso das duas últimas décadas, em decorrência do monetarismo, da desorganização, da livre troca comercial, do livre fluxo de capital e das privatizações massivas, responsáveis políticos permitiram a transferência de decisões capitais (em matéria de investimento, emprego, saúde, educação, cultura, proteção ao meio ambiente) da esfera pública para a esfera privada. Isto porque, neste momento, das 200 primeiras economias do mundo, a maioria já não é dos países, mas de empresas.
- O fenômeno da mundialização da economia se desenvolveu de maneira espetacular. Nos anos 70, o número de sociedades multinacionais não era mais que algumas centenas. Hoje são mais de 40.000... E se considerarmos os números dos negócios globais das 200 primeiras empresas do planeta, seu montante representa mais de um quarto da atividade econômica mundial. Porém, essas 200 firmas não empregaram mais que 18,8 milhões de trabalhadores, menos de 0,75% da mão-de-obra planetária... Os números dos negócios da General Motors são maiores que o produto interno bruto (PIB) da Dinamarca, os da Ford são maiores que o da África do Sul e os da Toyota maiores que o da Noruega. E nós estamos aqui, dentro do domínio desta economia real, esta que produz e troca seus bens e serviços concretos. Se isso se juntar aos principais atores da economia financeira (cujo volume é 50 vezes maior que essa economia real), pode-se dizer que os principais fundos de pensão americano e japonês, que dominam o mercado financeiro, tomariam os Estados sem sustentação.
- Mais e mais países que venderam massivamente suas empresas pública ao setor privado e desorganizaram o seu mercado se tornam a prioridade dos grandes grupos multinacionais. Estes dominam por inteiro a economia do Sul. Eles se servem dos Estados locais para exercer pressão no seio dos fóruns internacionais e obter decisões políticas mais favoráveis à sua dominação global.
- Os fenômenos da mundialização econômica e da concentração de capital, tanto no Sul quanto no Norte, destroem a coesão social. Eles agravam por todo lado a desigualdade econômica, que se agrava à medida que aumenta supremacia dos mercados. Assim, a obrigação de revolta e o direito dos cidadãos se amotinarem, tornam-se novamente imperativos para a recusa dos inaceitáveis regimes globalitários."
- Muito se tem questionado sobre a cristalização da estrutura econômica globalizada, torna-se entretanto, mais importante saber como ela se cria e se metamorfoseia. A diversidade e os pontos de vista pousam sobre uma sentença: planejamento e controle possuem uma clara relação, não existe controle sem planejamento, nem planejamento sem controle. Diante da inevitabilidade não seria a hora de se propor, em escala planetária, um novo contrato social?
Jorge Alves Safatle é historiador e Mestre em Ciência Política pela UnB além de Professor de Política UFG e Consultor Editorial do Jornal Opção.
- Mande um e-mail para Jorge Alves Safatle ou para a direção do jornal.
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