O mundinho da publicidade
Alexandre de Oliveira Ferro
- É fácil ouvir histórias de que o publicitário é aquele cara que fica atrás de uma mesa esperando o dia todo aquela idéia, aquele leão de ouro, aquele clio awards aparecer repentinamente, para aí escolher um cliente e aplicar essa maravilhosa doação de Deus. Fazer o que! Ainda tem gente que acredita em papai noel...
- Vamos fingir que você é um diretor de criação de uma grande agência de publicidade. Pois bem, num belo dia de chuva, com uma pilha de briefings em sua mesa que devem ser analisados e traduzidos em anúncios para daqui a duas horas - a mídia já está comprada e exige o cumprimento deste prazo - você recebe um briefing que não comunica nada e que mal traduz o que o cliente quer. Sua diretora de atendimento apenas o entrega e parte para uma reunião com alguns diretores de marketing. O tempo passa, o trabalho se acumula, há algumas exigências explícitas das quais o cliente não abre mão e que devem ser veiculadas num comercial "criativo". Você tem o briefing, o seu Mídia avisa que não há espaço nos horários adequados e que algumas estratégias da criação deverão ser mudadas. Você precisa criar. A produtora de sua confiança não garante tudo aquilo que você imaginou e julgou adequado e sugere algumas modificações que descaracterizam todo o valor agregado à criação. Você muda de produtora. Os briefings que se acumulavam em sua mesa são lidos. Você pensa em alguma solução viável de um outro anúncio que o cliente não aprovou e que mesmo com todos os pontos de vista que a agência sugeriu ele preferiu não ousar. A gráfica não fará o fotolito porque amanhã é feriado. Seu amigo, também publicitário, lhe mostra uma série de anúncios do último anuário dos diretores de arte de Nova York que se parece muito com a sua próxima campanha que irá ao ar daqui a uma semana. Você precisa mudar tudo senão será acusado de plágio, plágio em propaganda é anti-ético. Há uma reunião com o conselho administrativo de um outro cliente, você não entende o que o cliente quer comunicar, o planejamento sugere algumas estratégias mas o cliente não se decide. A concorrência por uma nova conta foi ganha por sua agência, mais treze briefings pousam em sua mesa. O sol da tarde bate em seu rosto. Você está com uma crise de sinusite e o ar condicionado da agência está ligado a todo vapor. Você precisa se reciclar, há congressos em Sâo Paulo, você precisa se renovar, buscar fontes, você assiste ao Velocidade Máxima 2 e ao Waterworld, lê Kafka, escuta jazz, forró e música country. Um estagiário fica puxando o seu saco. "Seu" anúncio é veiculado e o do concorrente chamou mais a atenção. "Seu" anúncio é veiculado e o consumidor mudou de canal na hora H. Você está com fome e pede uma pizza pelo telefone. São duas da madrugada e o seu Macintosh pifa antes de você salvar o teu trabalho. Há um novo posicionamento mercadológico de um velho cliente que precisa ser estudado com atenção. Você precisa terminar de ler o seus três livros de cabeceira. Sua pizza chega, seca, fria, dura e enrugada. Uma marca precisa ser revitalizada e reconstruída. Há novos softwares no mercado que precisam ser instalados na agência. Você demora a aprender os macetes deste novo software. Outro anúncio é veiculado, desta vez o consumidor assiste, arregala os olhos, presta atenção e depois comenta com os amigos, você não comemora há outros trinta briefings te olhando da sua mesa - parabéns.
- Para aqueles que vivem no mundo real sejam bem vindo ao mundinho da publicidade.
Alexandre de Oliveira Ferro é acadêmico do 8o. semestre de publicidade da UnB.
- Mande um e-mail para Alexandre de Oliveira Ferro ou para a direção do jornal.
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