UMA ESTRELA COM O NOME
" AMÁLIA "
Faz-me pena
Que culpa tem o destino
Deste destino que eu tenho
Se o desgosto é pequenino
Eu aumento-lhe o tamanho
É meu destino
Se o desgosto é pequenino
Eu aumento-lhe o tamanho
Se o desespero matasse
Eu já teria morrido
Talvez alguém me chorasse
Talvez o tenha merecido
Sinto que cheguei ao fim
Das ilusões que não tive
Porque alguém gosta de mim
Algo de mim sobrevive
Cheguei ao fim
Mas se alguém gosta de mim
Algo de mim sobrevive
Adeus que chegou a hora
Há muito a venho esperando
E se por mim ninguém chora
Faz-me pena e vou chorando
Já vou embora
E se por mim ninguém chora
Faz-me pena e vou chorando
Amália Rodrigues,
«Versos» nos Livros Cotovia
A Voz
Maria Augusta Silva
Irrompeu das vielas, espalhou o pregão dos limões, descalça, traquina, olhos de um castanho macio. E desafiou o canto que estava dentro de si mesma. "Fui espia apenas do meu fado", disse um dia ao Diario de Notiçias. Espia do sentimento. De uma identidade com um povo que escreve saudade por dentro das veias. Com um povo que ama apaixonadamente. Desesperadamente. Que se encontra na comunhão e no ciúme. Na desavença e no perdão. No drama e na sina. A voz de Amália, de Amália Rodrigues, personificou essa alma e esse corpo. De um povo tão capaz da mais comovedora nostalgia, de uma oração, de muitas lágrimas, como de um sorriso arrebatador, de um afago solidário, de um sentir dorido e de um hino à vida.
Amália, a intuição. A simbiose da estética fadista e do coração aberto a "uma estranha forma de vida". Um respirar a plenos pulmões a essência de um país que levou a todos os cantos do mundo, nos seus encontros e desencontros, nos seus pecados e esperanças, nas suas realidades e utopias. Amália. Um timbre ímpar. Com que voz? A voz de Barco Negro, Uma Casa Portuguesa, Gaivota, Maria Lisboa ou Trova do Vento que Passa. A voz de Coimbra, Fadinho Serrano, Procura, Cansaço. A voz de Inch'Allah, de L'Important C'Est la Rose, de Canzone Per Te. A voz de Povo que Lavas no Rio, Libertação, Fado Malhoa, Foi Deus, Job ou de Mariquinhas. A voz de Tudo Isto É Fado, Verde Pino, Verde Mastro ou de Anjo Inútil. A voz de Fado Final, de Amália. Olhos fechados, voltados para a luz interior da sua força, a um só tempo imponente e simples. Mãos de fé, tocando a emoção do verso na sua própria pele. Mãos que se prendiam e dresprendiam, cruzando o xaile negro e destinos de sonhos e amores, de encantamentos e perdas.
A voz. O ídolo. A Diva. Renderam-se-lhe plateias nas maiores salas de espectáculos internacionais. Que mistério o de uma voz que todos entendiam, cantasse em português ou nos diversos idiomas que aprendeu sem esforço? Que fenómeno o de uma voz gigante e melódica, vibrante, tivesse por companhia a guitarra e a viola, a grande orquestra ou as castanholas? Que voz essa, que saltou fronteiras - e barreiras -, com passaporte rompendo férreas cortinas, que se ocultou e desocultou entre palmas e êxtases, entre orgulhos e brios, entre feridas e cicatrizes, bem amada por quase todos, mal-amada apenas por uns poucos? A voz de Amália. A da emoção. A da empatia. A de uma identidade que soube cantar a língua de Camões, a de poetas de todos os tempos, de todos os estilos e escolas, de rima ou de pé-quebrado, de trovadores e de vozes da modernidade. Amália, também ela poema de sol e de luas, de muitos rios e mares, de flores bravias. Expoente de um século numa cultura que dizia não ter, mas que soube, afinal, ensinar-nos, cantando, cantando-nos. Com uma entrega total. Esse, porventura, o seu maior segredo.
Amália dos poetas, dos pintores, dos escultores, dos compositores. Dos amigos verdadeiros e dos que fingiram sê-lo. Amália da família. Amália mulher-menina. Amália do mundo. Paradoxal, às vezes, na gargalhada cheia e numa rodilha de lágrimas. Entre palavras contidas e outras desassombradas. Humana no mais fundo dos seus cinco sentidos. Desconcertante na timidez, nos medos que a tomavam ao entrar em palco. Depois, bastava-lhe cantar. O "milagre" acontecia. Amália era do público. Do povo. O povo era de Amália. Fado intenso. Interiorizado. Companhia. Lenda. Cereja e trigo. Uma fome de alegria, escondida por detrás dos espelhos. Amália, a senhora dos grandes óculos escuros, arma discreta que a defendia de todos os percalços. Refúgio e fuga.
Recordo Amália em espectáculos, idolatrada. Pelo fado, pelo folclore. Pela voz única. Vejo-a, arguta, em encontros no Martinho da Arcada. Relembro-a em sua casa, sempre coberta de gente. Falámos tanto e de tudo. De um destino: "O de não conseguir deixar de sonhar, apesar de desencantada."
Amália. Silêncio... A voz.
Amália Rodrigues -
Foi Deus
Amália
Rodrigues - Estranha Forma De Vida
Silêncio! Vai-se cantar o fado...
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Título |
Tamanho |
Faixa | |
Amália no luso |
123 Kb |
faixa 1 - Bronquite | |
Com que voz |
78 Kb |
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faixa 4 - Com que voz |
Segredo |
110 Kb |
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faixa 1 - Medo |
Estranha forma da vida |
121 Kb |
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CD 1, faixa 14 - Estranha forma de vida |
Amália no luso |
135 Kb |
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faixa 16 - Foi Deus |
Segredo |
114 Kb |
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faixa 3 - As mãos que trago |
Estranha forma da vida |
74 Kb |
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CD 2, faixa 1 - Ai mouraria |
134 Kb |
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CD 2, faixa 8 - Gaivota | |
104 Kb |
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CD 1, faixa 2 - Fado menor | |
Amália Rodrigues ao vivo |
91 Kb |
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faixa 4 - Vou dar de beber à dor |
Estranha forma da vida
|
93 Kb |
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CD 1, faixa 13 - Amália |
152 Kb |
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CD 2, faixa 7- Povo que lavas no rio | |
Amália Rodrigues |
73 Kb |
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faixa 6 - Abandono |
Amália no Olimpia |
176 Kb |
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Palmas |
LINK´S PARA PÁGINAS COM AMÁLIA
http://www.amalia.com
e esta que não pode perder , visite-a
http://geocities.com/cecskater1/
07. Nov 00 by J-A © Portosom07. Nov 00 by
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