Corrupção, asco e outras bossas


Luís Cláudio Guedes

"Raramente a corrupção se origina no povo"
(Montesquieu, 1689-1755)

É coisa rara de se ver. Mas se uma pessoa simples, destas do povo, acha uma carteira recheada com documentos e dinheiro e sai no encalço do legítimo dono, o Jornal Nacional e afins têm garantida a última notícia do dia. É o tipo de assunto light o suficiente para servir de contraponto a tanta desgraça e a toda carga de coisas ruins que os telejornais despejam diariamente em nossos lares e mentes. Ideal para deixar junto com o tradicional boa noite do locutor uma pontinha de esperança na sorte do gênero humano.

O jornalista Roberto Pompeu de Toledo concluiu outro dia na Veja que, no Brasil, a banda pobre venceu. "O Brasil não é mais um país onde pululam casos de corrupção, mas um país, em si, corrupto", escreveu Pompeu de Toledo. Não estou aqui para repercutir a Veja, quero tão somente manifestar a angústia que é companheira da minha, da nossa impotência diante desta constatação. Yes, somos corruptos! Mas e daí, qual será a nossa reação diante deste fato, agora público e notório, já que alguém ousou publicá-lo?

Se em cinco Séculos de civilização tudo o que conseguimos foi uma sociedade em que, às estruturas podres do poder e do mundo dos negócios se junta o jeitinho brasileiro que estimula o guarda de trânsito e o motorista em flagrante delituoso a acertarem um troco para a cervejinha, talvez tenha chegado o momento para uma atitude mais institucional. A CPI do narcotráfico (viva a CPI do narcotráfico!) descobre e prende uns peixes miúdos aqui e ali mas a Justiça manda soltar pouco depois. Ora, se chegamos ao ponto a que chegamos, não será uma CPI ávida por holofotes e uma Justiça boazinha que vão resolver o problema.

Impunidade, este é o xis da questão. Nossa sociedade tolera a corrupção e não dá o destino justo a corruptos e corruptores. Alguém aí pode estar sugerindo uma medida nos moldes da operação mãos limpas que a Itália desenvolveu há algum tempo. O certo é que uma solução definitiva deve vir de cima, da cúpula que manda e desmanda no país. Ninguém melhor que o gerente do FMI para assuntos brasileiros para propor uma cruzada pela moralidade na política e o fim de todas as quadrilhas que atuam por aqui, inclusive aquelas do narcotráfico?

A apatia do presidente FHC diante dos temas que verdadeiramente importam à Nação chega a ser revoltante. O presidente tem manobrado o Congresso Nacional ao seu bel prazer, mas não o faz no sentido de provocar uma agenda socialmente produtiva. Por mais sincero que possa ser o asco presidencial diante do crescimento da corrupção no país, do líder e do estadista que ele pretende ser se espera muito mais: apontar caminhos, oferecer soluções, agir, enfim. FHC não pode ficar indefinidamente a tentar colher os louros da estabilização econômica e a fingir que todo o resto não é com ele. Mais que pronunciamentos indignados que não têm o poder de mobilizar, talvez lhe falte autoridade   para tanto, dele se espera mais ação e menos tibieza.

Ainda que sozinha a corrupção possa fazer mais estragos que as bíblicas dez pragas do Egito, nem tudo está perdido. O processo de moralização que se faz necessário para tornar o Brasil viável nos próximos anos 500 anos depende de pequenos gestos e grandes desafios. Aonde a moral, aonde a decência, aonde a honradez? Elas estão no fundo da alma brasileira e o exemplo, ainda que raro, do sujeito pobre que não aceita a saída fácil de ficar com o dinheiro e jogar a carteira sem dono no primeiro bueiro demonstra isso.

Só que para tudo existe um limite: o honesto não pode sentir vergonha da sua honestidade. O Brasil decente não pode chegar ao ponto de se ruborizar diante da parcela corrupta. A corrupção que atravanca o país está encastelada nas proximidades dos palácios, lá no andar de cima. Ao povo resta a alternativa do jeitinho brasileiro, seu útil manual de sobrevivência. A banda podre vai ganhando o jogo mas, felizmente, ainda não é a maioria. Não regredimos à barbárie, por enquanto. Atravessar esta linha tênue significa um custo alto demais para nosso surgimento enquanto povo e Nação. Os laços e ternura se renovem a cada boa noite do Jornal Nacional, e a nossa esperança, até quando?

Luís Cláudio Guedes é estudante do 4º ano de jornalismo da UFG.

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