Princesas e Porcos
Carina Dourado Rodrigues
Esses dias, voltando da faculdade, presenciei uma cena repugnante
e (por) que quase todas as mulheres já passaram: aquelas cantadinhas
bregas de rua. Estava eu andando numa calçada do centro da cidade,
quando dois homens, daqueles suados, vinham em direção contrária
à minha. Na frente deles, duas garotas conversando qualquer coisa.
Um dos suados, com um sorrisinho de canto de boca, encarava o corpo de
uma das garotas. Quando as ultrapassou, continuou acompanhando a garota
com a cabeça, vistoriando a parte frontal dela. E além da
encarada nojenta, soltou um “princesa”, passando a língua entre
os lábios e fazendo aquela cara de satisfeito com o “feito de macho”
do qual se orgulhava. Quanto à garota, fingiu que não viu
e continuou caminhando e papeando com a colega.
Não estou aqui somente para atacar a atitude machista
daquele homem. O que me intriga é não compreender por que
as mulheres têm que baixar a cabeça ante uma atitude nojenta
daquelas, enquanto os homens falam o que bem querem para nós na
rua. Ainda não entendo para que essas cantadas servem. Seria uma
fuga de um fora, já que tudo acontece numa fração
de segundos e geralmente a reação feminina é ficar
se mordendo por dentro e permanecer calada? Ou seriam essas cantadas a
tradução de: “sou homem, faço e digo o que quero a
você e não te dou liberdade para reagir”? Ou ainda, seria
simplesmente um “eu acho você realmente bonita”? Das três,
creio que a última é a mais ingênua e falsa.
Diversas vezes reagi a uma dessas cantadas, e nunca me aconteceu
o que a maioria das mulheres usa como desculpa: ele ser homem, ser mais
forte do que eu, pode me perseguir, me bater, sacar uma arma, sei lá.
Pelo contrário, ante a minha atitude, eles ficaram sem reação.
Acredito que da mesma forma que esse tipo de homem pode me tratar como
se estivesse à venda, no cio ou em temporada de caça, posso
também mostrar que comigo ele não tem vez. Outra desculpa
usada para encobrir a humilhação é fazer como a garota
da cena: “sou superior, finjo que não ouvi.” E assim, vamos continuar
ouvindo pelo resto de nossas vidas as mesmas gracinhas no meio da rua.
E isso não passa de humilhação, já que eles
têm liberdade total para falar o que querem e até passar a
mão no cabelo (ou em outro lugar qualquer) sem permissão
e continuamos paradas.
Este não é um texto declarando guerra também
às cantadas bregas e aos homens que as fazem, pois seria impossível
mudar essa cultura machista somente pelo lado deles. O que falta é
reação, é não engolir a seco algo que humilha
a mulher. Demorou séculos para que a mulher tivesse a “ousadia”
de denunciar um estupro, por medo e vergonha. Agora que vários
direitos femininos foram conquistados, não temos que nos sujeitar
a isso.
Carina Dourado Rodrigues é estudante
do 3° ano de jornalismo da UFG.
Mande um e-mail para a direção
do jornal.
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