Lágrimas Secas


Élida Martins de Oliveira

O Sol, o qual antes beijava a terra ao anoitecer, agora, na paisagem cinzenta, morre entre prédios e ruas movimentadas (formigueiro de “Marias” e “Josés”, que se esbarram e se cruzam, indiferentes). Falando em Sol, há num bairro nobre de Goiânia uma praça que recebera o mesmo nome, Praça do Sol, contudo naquele dia ela não ousaria brilhar.

A tardinha abriu caminho para a seca e quente noite goiana, sem estrelas. Madames com seus “dogs”, de laços e coleira dourados, caminhavam solenes ao redor da praça. Nos “fast foods”, jovens comiam sanduíches e bebiam Coca-Cola. Tudo parecia normal e harmônico, mas quando “os bichos das ruas” chegaram, a harmonia foi rompida. As madames agarraram-se às bolsas, celulares e cachorros. Os jovens, indiferentes, ignoravam a presença daqueles bichos sujos e asquerosos (talvez para não perder o apetite).

Algumas das crianças, os bichos citados anteriormente, macaqueavam sobre a grama verde da praça do Sol. Outras, aspiravam uma mistura de esmaltes, cola e álcool, quebrando os limites do real e adentrando o surreal fantástico. As pessoas continuavam bebendo refrigerante e comendo.

Não me pergunte, leitor, pois não saberei responder como começou o conflito, talvez devido à disputa pela cola, talvez devido à própria lei das ruas. Um menino, cuja pele estava ferida e imunda, atirou-se sobre outro maltrapilho. O pequeno duelo havia começado. Socos e pontapés. Pernas e braços se confundiam, se perdiam, se fundiam. A madame ajeitava os lacinhos de ouro da princesa-cadela enquanto discutia a última moda pelo celular. Um dos envolvidos no conflito (não sei qual, pois todos têm a mesma cara de fome) pegou uma pedra e arremessou contra o crânio do adversário, jorrando o sangue quente do ex-menino de rua, agora cadáver-indigente. Um dos jovens que estava lanchando na praça soltou um grito reclamando pela falta de mostarda no seu sanduíche. Como num ritual, os “filhos das ruas” debruaram o corpo disforme do colega. O silêncio. A dispersão lenta. A lágrima desnutrida, seca. O fim? Não, o normal. As pessoas continuaram fazendo as mesmas coisas, pensando da mesma forma e ignorando as mesmas realidades.

A Praça do Sol vestiu o luto da Lua, deixando de ser luminosa para ser “iluminada” pela hipocrisia humana.

Élida Martins de Oliveira é estudante do 1º ano de jornalismo da UFG.

Mande um e-mail para a direção do jornal.

Primeira - Anterior - Próxima - Última


Voltar para a página principal


© 1997 1998 1999 2000 Jornal Integração Todos os direitos reservados

1