O direito ao preconceito


Luiz Roberto Cupertino

Já é idéia propalada em demasia a de que vivemos um tempo de banalizações. Banaliza-se o sexo, a morte, o amor, a moral, e, por que não dizer, a ciência e sua insistência em não nos oferecer um lugar no céu, e a própria religião, por não nos oferecer a cura da AIDS. Num ambiente assim a palavra preconceito assume uma armadura quase impenetrável e passamos a correr dela como correríamos de um tigre esfaimado. Ser chamado de preconceituoso, hoje, é como ser xingado de filho da puta. 

Sou, portanto, um grande filho da puta. Pois vejo que esse conceito tão midiático, tão expansivo, assumiu vigor ditatorial e tem travado até mesmo mentes inteligentes de prosseguir construindo um pensamento original e fértil. Se falamos em topless e se você é contra, ora, seu retrógrado moralista! Se fala-se em drogas e você é contra, ora, seu careta moralista! Enfim, há uma única maneira de se pensar no mundo: ser modernoso ou ser preconceituoso ( equivalente a ser um grande imbecil). 

Sou, portanto, um grande imbecil. Pois vejo uma festa rave e acho tudo muito hilário e penso que ali estão todos tentando ser tudo que não poderiam ser diante de um preconceituoso, ou seja,  uma festa rave é a transgressão do preconceito. Ali pode-se ser o que quiser. Mas se alguém ousar dizer que é tudo uma farsa, como nos circos, então é um preconceituoso travado em cânones já há tanto tempo abandonados. Já estamos no ano dois mil, não é mesmo? É hora de alguém ter coragem de defender o direito ao preconceito. Só para que abandonemos o “tudo vale”, o “deixa passar”, a “cabeça aberta”, essas coisas tolas que têm feito o mundo ser o que é. É de tanto deixar passar, é de tanto ser conivente para não ser preconceituoso, que vemos, e talvez essa seja a tese mais ousada, grupos extremistas como esses neonazistas carecas. De tanta hipocrisia, de tanto deixar passar, estamos criando involuntariamente válvulas de escape transgressivas extremamente recalcadas. O tiro sai pela culatra, então. Nós esculachamos com o preconceito e criamos com isso grupos que fazem dele um espetáculo mórbido. É o glamour do preconceito como crime. É o famoso “proibido é mais gostoso.”

Estou cansado de deixar tudo passar, estou cansado de ouvir “mentes abertas”, pois estamos criando com isso um mundo que vai estourar em violência de grupos de escape localizados e especializados em extravasar preconceito. Pois para se ter preconceito é preciso certo bom senso, habilidade técnica até. O politicamente correto tem criado uma aberração em torno do termo preconceito, esse entendido no sentido não etimológico, mas usual, que significa contra o que é padrão. E há muitas coisas que não são padrão e são boas mas há muitas coisas horripilantes. Estaremos, por hipocritamente nos passarmos por pessoas não preconceituosas, criando violência incontrolável. 

Saibamos ter preconceito. Devo ter o direito de não concordar com o que bem entender desde que o faça com simpatia. Teremos então um mundo suportavelmente preconceituoso, em vez de um mundo insuportavelmente não-preconceituoso como temos hoje. Somos todos preconceituosos e para ter preconceito com harmonia é preciso primeiro rejeitar a falácia do preconceito como um xingamento, uma ditadura, e sabermos como ser contra algo com elegância. 

Luiz Roberto Cupertino é estudante do 6o. período de filosofia da UCG.

Mande um e-mail para Luiz Roberto Cupertino ou para a direção do jornal.

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