Só pra não dizer

Rosângela de Souza Melo

"De eterno e belo há apenas o sonho... por que estamos nós falando ainda?" (Fernando Pessoa).

Amigos (ou não), de fato eu compreendo a imensa falta de sentido que determinadas composições provocam em mentes um tanto quanto pouco desenvolvidas. Sendo assim, peço licença por meio deste "pequeno comentário" para fazer-lhes uma explanação a respeito de uma situação que, a meu ver, é delicadíssima. Ei-la:

Caminhava eu pelo corredor da nossa queridíssima Facomb (Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da UFG) quando uma determinada pessoa (da qual não fiz a mínima questão em recordar o nome, tampouco a feição) me abordou com a seguinte dúvida: "Rosângela, não entendo como uma moça tão inteligente fica por aí escrevendo poesias; por que não escreve coisas mais úteis?". Agradecida pela parte que me toca, indignada e sem absolutamente nenhuma resposta malcriada para retrucar, eu apenas sorri e acatei a idéia, a princípio, de que talvez eu não estaria mesmo contribuindo em nada para a formação do invejável "intelecto" das pessoas. O problema foi que tal indagação vem me incomodando um bocado e, depois de refluir por demais o pensamento, só agora consegui desenvolver "sua" resposta.

Entendo que neste mundo sistematizado pela tal Modernidade, as necessidades passaram por uma mudança de valores no campo da moral e da ética para que as adaptações à nova realidade fossem concretizadas. Mudanças estas que, acredito eu (e me apóiam alguns muitos estudiosos da área), acabaram nos levando à "coisificação" do ser humano, o qual se encontra, hoje, em uma situação de total apatia à imposição de um paradigma único de comportamento, denominado Globalização, contexto no qual talvez não haja mesmo mais "mercado" para a produção poética. Mas, não seria essa sociedade, fincada em valores materiais, uma verdadeira fábrica de "super-homens emocionalmente infantilizados"? E é através desta questão que me defendo daquela outra, afirmando que talvez, no fundo, não seja um absurdo uma "lunática sonhadora" desejar nada mais que alimento para a alma. É isso: escrevo poesia porque não consigo imaginar uma realidade totalmente desvinculada desta busca por um certo "irreal" que aparte a fatídica percepção do que seja a vida; também poderia responder-lhe simplesmente, ironicamente, que escrevo poesias porque as palavras se juntam, aleatórias, e vão montando esses estranhos dédalos de coisas não vividas, não sentidas (mas ressentidas) neste imenso vazio de estar aqui; mas, sem ironia, eu lhe diria ainda que não encontrei um argumento sequer para dar-me razões a abrir mão de poetizar essas "banalidades cotidianas". Serão elas tão banais?

Talvez eu esteja mesmo perdendo meu tempo escrevendo a respeito de sentimentos que não cabem mais na conceituação de Modernização (palavra, aliás, que nada tem de humano, somente de tecnológico). E se essa minha atitude em insistir querer ser "a-moderna" (ou anti-social nos atuais padrões da sociedade) está causando incômodo a alguém aí, eu deixo aqui as minhas mais sinceras desculpas, mas, realmente não consigo imaginar a formação do meu "eu" sem a presença constante (quase diária) de Fernando Pessoa, Lord Byron, Adélia Prado ou de outros tantos "anônimos midiáticos" como eu, que simplesmente sentem com a imaginação.

Aqui eu deixo a minha égide à produção poética, afirmando, uma vez mais, que escrevo, sim, "coisas banais" pela simples utopia de querer resgatar, em uma única pessoa que seja, o bem maior que podemos ter: a capacidade de sonhar.

Sonhem, meus amigos (ou não); é de graça e nem dói nada.

Rosângela de Souza Melo é estudante do 1o. ano de relações públicas da UFG.

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