Problemas do mundo

Jardel Sebba Filho

Albert Camus foi execrado por uma polícia política muito parecida com a que hoje me ataca quando se naturalizou francês para receber o Prêmio Nobel de Literatura por seu A Peste - talvez com a determinante diferença que "Horácios" e "Maçarandubas" se resumiam a Jean Paul Sartre. Seu país vivia um dos piores momentos da guerra civil, mas Camus se recusava a levantar qualquer bandeira, porque poderia enganar a todo o meio cultural da época, mas não a si mesmo. O escritor argelino estava preocupado com a descrição da natureza, com o perfil dos que se eximiam das batalhas do cotidiano, e só com eles. Sabia fazer como ninguém o que propunha, é um dos escritores mais concisos e sensíveis da história, e deu a seu país uma notoriedade (com excelência) que nenhuma guerra daria. Mas Sartre queria resolver os problemas do mundo. E atormentava a vida de Camus.

A imprensa cultural paulistana chegou a sugerir um boicote quando soube que os ingleses do Echo & The Bunnimen se apresentariam na cidade com apenas dois de seus integrantes originais. Era um absurdo os colonizados aceitarem pagar ingressos caríssimos para assistir a um show de velhos decadentes apresentando um arremedo do passado. Mas havia uma geração de fãs, eu incluso, que gostaria muito de poder morrer tendo ouvido Ian McCulloch cantar "The Killing Moon". E conseguiu, e foi tomada por uma emoção indescritível numa noite chuvosa de quinta-feira. Mas a imprensa cultural paulistana quer resolver os problemas do mundo. E atormentou a vida dos fãs que não tiveram idade para vê-los em 87. Jon Bon Jovi foi perseguido e massacrado pelas feministas de plantão quando teve a coragem de afirmar que havia entrado no showbusiness musical para faturar sexualmente. Era um absurdo continuar comprando os discos de alguém que havia demonstrado uma motivação tão chauvinista e "anti-artística" para fazer música. Mas se essa sinceridade fosse regra não só no meio cultural, mas em escolas de teatro, intercâmbios culturais, pós-graduações, congressos e representações políticas, o galã norte-americano sairia ileso, como Maria Madalena. Mas as feministas querem resolver os problemas do mundo. Ainda não alcançaram seus objetivos. Já o Bon Jovi...

Nos idos do começo dessa década, a União da Juventude Socialista (UJS), organização "apartidária, ligada ao PC do B" (?!), preparou uma lista de autores que deveriam ser evitados (leia-se proibidos) por seus pares por "conspirarem contra o espírito progressista e revolucionário" da instituição. Para seus integrantes, essa decisão não teve implicação prática, pois nunca haviam ido muito além em literatura que as histórias da Magali e os diários de Che Guevara. Certa vez, durante uma de suas reuniões - sim, eu também já quis resolver os problemas do mundo, mas o tempo foi sábio - tive a infeliz idéia de comentar um livro de Mario Vargas Llosa, um dos proibidos da lista. E por um momento acreditei não ter sido tão ruim a então recém posse do presidente Fernando Collor. Quem proíbe Llosa, Carlos Heitor Cony e Tom Wolfe não pode estar no poder. Dizem que o maior problema da juventude dos nossos dias é o desinteresse pelas causas políticas. Com a bagagem de exemplos que colecionei nos últimos anos, acho isso solução. Mas a UJS queria resolver os problemas do mundo. E atormentava a vida de quem conseguia ler algo com mais de três personagens e acima de trezentas páginas.

Crianças, parem de querer resolver os problemas do mundo. Procurem gastar energia sendo mais compreensíveis com as fraquezas alheias e mais receptivos aos seres humanos em volta. Procurem conhecer melhor os próprios sentimentos. Percam a consciência política, e todas as outras, de vez em quando. Esqueçam de dormir certas noites. Controlem a impulsão. Aceitem o fracasso e vislumbrem o anonimato. Comecem a revolução pela cama de vocês.

Jardel Sebba Filho é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.

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