Direito à descrença

Melissa Cristina Rodrigues

Não existe gente mais perseguida que os descrentes. Sempre há alguém para dizer que o ateu está errado, que precisa converter-se urgentemente e ter fé naquilo que o crente acredita. Como é difícil ser descrente, ser ateu ou até mesmo deísta. Constantemente aqueles que não crêem são obrigados a se confrontar com crentes pregando suas doutrinas como se fossem donos da verdade absoluta e tudo mais estivesse errado. Essas pessoas, muitas vezes, ignoram o direito de opinião alheio, e tentam sanar dúvidas existencialistas com respostas simplistas que estão nos livros religiosos.

Deus existe sim. Como você sabe? Ah, porque está na Bíblia, no capítulo tal, no versículo tal. Excelente argumento. Eu realmente fiquei convencida da existêncica de Deus por meio de um livro que dizem ser a carta de Deus, só que eu não sei quem escreveu, nem como foi alterada através dos tempos, e ninguém consegue me provar sua autenticidade. Um livro com o qual não me identifico e não gosto de ler. E olhe que já li muito. Ninguém pode me acusar de estar falando de algo que não conheço. Tive formação católica. Também não acredito que os mesmos ensinamentos dados a um povo que viveu há séculos sirva para nosso mundo e nossa cultura, à beira do terceiro milênio.

Quando critiquei o padre Marcelo Rossi neste jornal e, com ele, toda a Igreja Católica, um padre escreveu uma crítica direcionada a mim, dizendo que estava perseguindo sua igreja. Eu realmente não senti o perigo que ofereci à igreja manifestando meu direito de opinião que é assegurado pela Constituição. Repito: estava tão e somente manifestando meu direito de opinião, ou será que só a igreja católica não pode receber crítica como qualquer outra religião? Será que na mentalidade do padre só podem existir opiniões favoráveis à igreja? Não sei porque, mas essa atitude me lembrou os velhos tempos da "Santa" Inquisição, que destruía qualquer pessoa que pensasse de forma diferente da igreja.

Quanto mais tentam me converter, mais certeza eu tenho que nunca vou me converter ao cristianismo. E de que vou continuar defendendo as minhas idéias da liberação sexual da mulher, do direito ao uso de anticoncepcionais como a camisinha, a pílula e o DIU ( dispositivo intra uterino ), e de dispor do próprio corpo ou seja de interromper uma gravidez quando achar necessário. Vou repetir, quantas vezes for preciso, o direito de liberação sexual dos gays, bissexuais e lésbicas.

Por falar em métodos contraceptivos, aproveito a deixa para manifestar o meu desprezo a determinadas atitudes impulsionadas pelo espírito religioso e não democrático. Há alguns meses, a Câmara de Vereadores de Anápolis vetou a distribuição de DIUs nos postos de saúde da cidade, pelo fato de existirem muitos políticos religiosos que acreditam que o dispositivo é um abortivo. Então, porque esses homens que não entendem absolutamente nada do que é ser mulher e acham que quem usa DIU está cometendo um pecado, privam todas as cidadãs do seu uso? É certo privar as mulheres de um direito que lhes é assegurado, por crenças religiosas pessoais? Onde está a democracia? Onde está a ética? Ora, a mulher que é religiosa e acredita que usar DIU é pecado tem o livre arbítrio de não usar. Mas por que a mulher que quer usar o DIU não tem o mesmo livre arbítrio ou seja, não tem o direito de usar? Proibir a distribuição desse método contraceptivo nos postos de saúde foi sem dúvida um atentado contra os DIREITOS da MULHER.

Além disso, teve outro padre, desta vez de Pirenópolis, que quis impedir a venda de preservativos nas farmácias da cidade. Outra medida absurda a meu ver, pois avilta os direitos de homens e mulheres. Mais uma vez, ninguém está obrigando os casais que acreditam que o uso de camisinha é um pecado, a usarem-na. Mas as pessoas que querem usá-la tem todo o direito, mesmo porque estão se prevenindo de uma gravidez indesejada e de doenças sexualmente transmissíveis.

Os padres podem pensar o que quiserem e pregar suas crenças para seus fiéis, mas não usar de meios impositivos para obrigar a população à sua vontade. Foram atitudes como essa que me impulsionaram a escrever aquela frase que reconheço ser um pouco exagerada "o catolicismo é o fascismo em forma de religião". Mas, reafirmo tudo que escrevi naquele texto. Ações como essas, são imposições e aviltam direitos das pessoas, daí a relação que criei com o fascismo. No entanto, não pretendia causar revolta entre os católicos, ainda que o meu tom tenha sido bastante agressivo. Não pretendia generalizar o catolicismo, porque há pessoas na Igreja pelas quais tenho grande admiração. Dentre elas está o Frei Betto, que prega as mesmas idéias que defendi anteriormente, sem no entanto deixar de ser um católico fervoroso. Sem falar que o Frei é uma pessoa de grande atuação social.

Eu não sou contra "toda a forma de religião", muito pelo contrário, sou a favor da liberdade religiosa. Que as pessoas tenham livre arbítrio de seguirem a religião ou seita que quiserem, seja cristã ou não. E que tenham também o direito de serem descrentes e sejam respeitados por suas idéias. Sempre haverá opiniões divergentes, mas que nenhuma se sobreponha à outra.

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Devo lembrar que esse texto não tem nada a ver com o "Direito à Fé" da Vanessa Chaves Vieira da edição passada do Integração. Os títulos são apenas uma coincidência, devido à minha falta de criatividade. Aproveito para tecer um elogio ao texto da Vanessa, brilhante em sua argumentação. Parabéns, Vanessa!

Melissa Cristina Rodrigues é estudante do 2o. ano de jornalismo da UFG.

Mande um e-mail para a direção do jornal.

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