Recordar é viver

Rodrigo Nunes Leles

Eu estava saindo do banho, há alguns dias atrás, quando entrei dentro do meu quarto, e me deparei com um monte de pastas colocadas ordenadamente sobre a minha cama. O meu primeiro ímpeto foi de guardá-las, o mais rápido possível em qualquer lugar, pois o sono já me invadia por completo. Mas, por algum motivo, me sentei na cama, e comecei a abri-las, buscando algo... Eu não sabia bem o que era; mas parecia que estava tudo lá, dentro daquelas pastas.

De uma hora para outra, me dei conta de que não havia nada lá. Apenas pilhas de papéis e livros, fotocopiados, a exemplo do aluno que, para não ter que guardar tudo na cabeça, preferiu apenas arquivar as informações, no caso de alguma consulta, ou revisão posterior - coisa que até hoje, nunca aconteceu... Foi então que eu encontrei o que estava procurando; não estava fora de mim, estava dentro... E aqueles papéis eram a prova de que realmente eu havia atravessado tudo aquilo...

Graças a eles, eu retornei aos meus dias de calouro. A cabeça raspada, a mente repleta de sonhos - muitos dos quais ainda estão presentes - e a total incerteza sobre o que viria. Pedindo desculpas desde já, pela pieguice, seria algo do tipo "a gente era feliz e não sabia". E quem diria, os acontecimentos se sucedem de tal maneira que, alguns anos depois, você nem se lembra mais de como as coisas eram antes...

Depois, o segundo ano... A gente, apesar de não gostar de admitir, é sempre calouro no segundo ano. Só que calouro mais experiente, mas ainda sem saber de muita coisa (não é para ofender ninguém, não, são apenas memórias)... Nessa época, o vazio da faculdade parece que já não surpreende mais; e, normalmente, mesmo os mais corajosos se acomodam - talvez por lembrar que eles também têm uma vida pra levar; por desânimo, ou por achar que eles são apenas mais um número na estatística dos milhares de formandos de uma universidade. Por isso, eu admiro alguns heróis que ainda vinculam suas vidas profundamente a essa instituição - ora chamando atenção, ora de forma anônima, o que é mais belo, por ser mais verdadeiro.

Lembrei-me, é claro, dos professores... Sim, os professores, e suas disciplinas incríveis... Cada um, dentro de si, sabe exatamente para que serviu cada uma delas - e , se não sabe, ainda vai descobrir... Eu não gosto muito das críticas empolgantes, ou das polêmicas geradoras de discussão, se não forem realmente por um fim útil; e os professores "facombianos" vão ser sempre motivo de polêmica e discussão. Eu prefiro ficar com um meio-a-meio: assim como muitos alunos não merecem os professores que têm, muitos professores também não merecem seus alunos... Com isso, eu chego à conclusão de que, invariavelmente, cada um - mais cedo ou mais tarde - sempre vai receber aquilo que merece.

Mas, voltando ao que me levou a escrever esse texto, eu recordo o quanto já ouvi muitas pessoas, ao longo do tempo, emitirem juízos sobre a faculdade, que nem sempre foram agradáveis de se ouvir - eu mesmo já fui uma delas, muitas vezes... E, quando eu me lembro que a instituição também somos nós, eu me pergunto como o ser humano (ou o "ser aluno", ou o "ser professor"...) pode ser tão acomodado, e ao mesmo tempo tão crítico. No ditado popular, "pimenta nos olhos dos outros é refresco" ("eruditamente falando", é claro).

Mas, sem dúvida nenhuma (nesse momento, você que já deve estar cansado de ler o meu texto, talvez se anime um pouco) a melhor coisa da faculdade, o que vai deixar marcas profundas, são os corredores... Eu nunca encontrei ninguém que falasse mal dos corredores (na minha opinião, as aulas sempre deveriam ter sido dadas fora das salas...)!!! É claro que os corredores são referências simbólicas à população "facombiana", que vive entrelaçada e interligada, em meio a relações (às vezes não tão públicas...) e a comunicações, que tentam ser quase sempre sociais. Em nenhuma das faculdades de toda a UFG se encontra um ambiente tão assim... Quase familiar.

Mas, como eu já havia dito antes, essas recordações me fizeram escrever esse texto, que é dedicado a todas aquelas pessoas que já conviveram, e convivem, como eu, nos corredores da Facomb, dividindo suas alegrias, tristezas e, principalmente, suas críticas... Eu, que me vejo agora mais próximo da porta de saída que da de entrada, sinto o quanto o tempo não passou; voou... E, apesar de ter feito muita coisa, eu não fiz tudo o que podia - e, às vezes, nem o que devia, "but I did it my way"...

E, apesar da louca vontade que sempre tive de sair, sinto também a extrema angústia da partida - penso que é pelo amor; que com a distância vira saudade... É por isso que eu digo: não importa quão grande seja a vontade de se formar o mais rápido possível; nem o quanto se fale mal ou se critique a faculdade e seus professores, e nem quantas vezes muitos alunos quiseram jogar uma bomba no prédio, e acabar com tudo... Até mesmo o coração mais endurecido vai se sentir, um dia, órfão, como eu, ao rever uns velhos papéis... Vai procurar algo neles que não vai encontrar, e vai se lembrar que o conteúdo realmente importante ficou guardado dentro de si...

Agora, pode jogar os papéis fora. Você já não precisa mais deles.

Rodrigo Nunes Leles é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.

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