Personagens da ignorância nacional

Jamila de Castro Souza

É inevitável abrir um jornal e não se deparar com conflitos de história em quadrinhos.

Extra, extra...

O super FHC luta contra o poderio do, também super, ACM;

O Tio San envia tropas da sua mais poderosa instituição, o FMI, para espionar a situação de uma região do globo que está envolvido numa crise econômica e social terrível.

O interessante é que quem arma esta história toda é a imprensa. Os meios de comunicação, de uma forma geral, elegem personagens para os fatos que acontecem no Brasil; e nós, leitores, telespectadores e ouvintes, passamos a acreditar que tudo de ruim ou de bom que acontece é resultado das ações de uma só pessoa.

Quando os veículos comunicativos agem desta forma, eles estão contribuindo para a alienação popular. O que ocorre é que os personagens tornam se o centro das atenções, e o que é mais relevante na notícia passa a quase não existir, o contexto, a movimentação dos grupos sociais e as conseqüências para a população. As atenções passam a ser direcionadas para as vantagens e desvantagens que o indivíduo (o personagem da notícia) pode ou não oferecer, o que na verdade não deveria acontecer, pois a função dos meios de comunicação não é criar herói ou bode-expiatório. O objetivo básico da mídia é dar à população formas de promover questionamentos acerca das condições social, política, econômica, cultural e histórica.

Todo o discurso feito acima foi para questionar a posição do povo em relação à figura do Fernando Henrique Cardoso (uma pessoa que já foi herói e que hoje é a bola da vez). Será que é tudo (problemas econômicos e sociais) é culpa dele? Foi ele quem iniciou a venda do Brasil ao capital estrangeiro? Por um acaso antes dele o sistema de saúde funcionava de verdade? E a educação, era eficiente?

Antes de continuar é melhor eu dizer que não estou defendendo o FHC. E muito menos a sua política. Só estou afirmando que pode ser injusta a acusação de que ele é o culpado por todas as mazelas que estão acontecendo. Eu acredito mais na hipótese de que a culpa pela atual situação do Brasil não é de uma única pessoa, e sim de um processo histórico desastroso. É uma opinião particular.

O fato da mídia eleger heróis e bodes-expiatórios e a população assumi-los, mostra o quanto o brasileiro é aculturado política, cultural, e historicamente. Não percebemos a história como um processo, no qual os fatos passados estão ligados aos do presente. E o mais importante, estão a todo momento interferindo na história que está se construindo nos dias atuais.

Jamila de Castro Souza é estudante do 2o. ano de jornalismo da UFG.

Mande um e-mail para a direção do jornal.

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