Una-se ou foda-se

Eduardo Horácio Jr.

No começo do mês de outubro deste ano, uma notícia passou sem muito destaque pela mídia: a União Nacional dos Estudantes (UNE) lançou seu plano de saúde, em parceria com a Unimed. O plano já tem até nome: "Una-se". O preço? Apenas um pouco mais de cinqüenta reais mensais, diz a UNE. E quem não pode pagar?

A UNE, em vez de defender uma saúde pública, gratuita e de qualidade (como jura que faz com a educação), passa a admitir que não é função do Estado garantir isso para todos e resolve lançar seu próprio plano de saúde. "Bela" solução. Com esse raciocínio, se o governo FHC resolver amanhã cobrar mensalidades de seus estudantes, a entidade vai ter moral para questionar o governo? Ou ela também vai admitir: não há como garantir ensino gratuito para todos e então vamos ter que aceitar essa solução?

Essa proposta da UNE só vem revelar uma fase do movimento estudantil que está começando a se desenhar. Tenta-se minimizar a ação reivindicatória e propositiva para valorizar um novo tipo de ação, mais operacional.

Assim, uma entidade com passado altamente combativo - como a União Nacional dos Estudantes - busca alternativas no modelo funcionalista que traz respostas imediatas mas não soluciona nada. A prioridade é o curto prazo, em que a solução melhor é a mais rápida.

Sinceramente, se o movimento estudantil entrar mesmo nessa via, ele estará definitivamente perdido. A defesa do mercado marca o início de um movimento sem a perspectiva de "mudar o mundo". São como novos sindicatos que têm como prioridades não a defesa da categoria mas, sim, a realização de bingos, festas e adjacências. Trata-se de ser realista, dirão muitos. Só que é muito fácil ser realista quando se aceita tudo que está aí.

O que é mais grave é que esse modelo não é aplicado exclusivamente pela UNE. Há muitos DCEs, UEEs e CAs pelo Brasil que cobram por cursinhos de línguas e pré-vestibulares. Em vez de exigir do governo algo que não passa de obrigação dele (afinal por que pagamos impostos?), o movimento desiste e tenta "se virar como pode" (justamente o que o governo quer).

Tomara que o hino da UNE esteja certo quando diz que "a UNE somos nós" e não estes seres oportunistas que estão lá na direção da entidade. Porque, se a desimportância atual da política estudantil não se deve exclusivamente à UNE, é fato evidente que a maneira como a entidade vem se conduzindo está sendo decisiva para espantar estudantes já propensos à apatia.

Eduardo Horácio Jr. é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.

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