Lucie e o cinema

Nazareth L. de Paula

Todos achavam estranho que a garota gostasse de ir ao cinema sozinha. Sim, porque ela achava que esse era um momento muito pessoal pra ser dividido com alguém que não fosse confiável. Lucie costumava dizer que até mesmo a respiração atrapalha. A respiração desconcentra e sempre mostra o que não é pra ser mostrado.

Talvez até mais que o olhar, a respiração acuse tudo. Lucie sentia vergonha de respirar - a respiração forte, que parecia querer arrancar o coração. Este era um dos motivos pelo qual ela se mantinha afastada. Era o medo de respirar e de olhar nos olhos.

Mas a respiração era apenas um detalhe, e o que Lucie gostava mesmo era de ir ao cinema sozinha. Também gostava de ouvir música sozinha às vezes, e havia uma porção de coisas que ela gostava de fazer sozinha. Era pra sofrer melhor e em paz, porque ela amava o sofrimento tanto quanto a alegria.

Mas o sofrimento era apenas um detalhe e a verdade é que Lucie gostava mesmo de ir ao cinema sozinha. Ela não queria ser interrompida na melhor parte do filme e é sempre difícil encontrar a companhia perfeita. Não que a garota não gostasse das pessoas, mas ela sentia que aquele momento poderia ser só seu.

Às vezes, Lucie sentia falta de alguém a seu lado nas cadeiras de cinema, mas quase sempre mudava de idéia, porque ela já não tinha mais companhias perfeitas e não queria arriscar a ser interrompida ou sentir vergonha quando respirasse. Lucie sempre sentiu medo de respirar perto de estranhos.

Nazareth L. de Paula é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.

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