Assim sonhou Clístenes
Marcela Baiocchi
- Eleições. No palanque, sobe o ser social conhecido como político, aquele que, seja por métodos coercitivos, persuasivos ou de sedução, estabelece sua potência. Fazendo uso da linguagem em suas mais variadas funções, elabora com minucioso cuidado, aquele discurso romântico sobre Democracia, no qual eleva todos os valores morais e as virtudes desse modelo político. E no decorrer de seu devaneio, repete, como numa imitação enfadonha de tantos memoráveis discursos, todo o blá blá blá dos direitos do cidadão: liberdade, voz e atuação popular etc. e termina com chave de ouro dizendo: "Para assim, fortalecer o desenvolvimento do processo democrático". Afinal, se a maioria das nações hoje vivem em regime democrático, por que ele se apresenta com tantas imperfeições, dado todo esse revestimento romântico a seu sentido?
- Vejamos: surgida em Atenas, cidade- estado grega, tal regime foi batizado com o nome de Democracia por um legislador chamado Clístenes, por volta de 510 a. C., cujo princípio básico era a isonomia, ou seja, a igualdade dos cidadãos perante a lei. Isso na prática significava a participação dos cidadãos nas decisões políticas, formando as Assembléias. Mas afinal, quem eram os cidadãos? Eram os homens, possuidores de expressão na vida econômica, social e intelectual, o que excluía a participação de escravos, mulheres e estrangeiros. Daí, surge a primeira contradição na Democracia: se há atribuições específicas ao cidadão , então a democracia já envolve-se de utopismo e de um caráter alienante. A concepção de igualdade é por si só universal e não remete à excluidora visão elitista e patriarcal em que se fundamentou a Democracia ateniense, um dos principais legados do mundo ocidental.
- Todo esse legado aplicado à nossa civilização "moderna" é, portanto, utópico. Maquiavel, em sua obra "O Príncipe", lança o "antiutopismo", o que descortina o advento de um racionalismo político, fundamentado na realidade individual do homem, isto é, aquele ser submetido desde o nascimento a uma consciência moral e ideológica. É nesse aspecto que o discurso moralista do demagogo citado no primeiro parágrafo se esbarra: o soberano, segundo Nicolau Maquiavel, não age de acordo com sua consciência moral , pois essa é a resolução de seus conflitos individuais. O "príncipe" deve agir centrando-se nos interesses coletivos, nem que para isso use métodos coercitivos e violentos para impor sua dominação. Ao contrário do que muitos pensam, a obra de Maquiavel não constitui-se num entendimento amoral do soberano. Uma análise mais profunda nos leva a perceber que sua intenção verdadeira é desmascarar as práticas despóticas, ensinando o povo a defender-se dos tiranos. Esse realismo político ditado por Maquiavel elucida, de modo efetivo, a posição do homem diante do poder.
- Uma das mais contundentes críticas à obra de Maquiavel é que sua teoria não é aplicável nas grandes nações, limitando-se às organizações das pequenas tiranias italianas. Eis aí um outro fato que se verifica na complexidade da organização democrática: a extensão territorial. Na Grécia antiga, as cidades-estados eram autônomas e a administração política era relativamente simples, diferentemente das grandes extensões territoriais dos Estados contemporâneos, onde a organização político-administrativa torna-se mais difícil.
- Outro dado que acentua o sentido utópico do regime democrático é a questão da liberdade. Afinal, que liberdade é essa? Vejamos: no período compreendido entre 333 a.C e164 a.C, a região que hoje chamamos de Palestina era dominada pelo império greco/macedônio (de Alexandre, o Grande). Ali se idealizou a "helenização" do mundo mediterrâneo, exatamente como os norte-americanos hoje idealizam e fazem a expansão do seu domínio cultural através da globalização. O modelo grego de democracia na Antigüidade Clássica sustentava uma grande contradição em relação à isonomia e à questão da liberdade, pois, como se sabe, era uma sociedade escravista - os primeiros a tornarem os escravos mercadoria. Os EUA, a nação que hoje é também modelo de uma democracia consolidada e se vangloria de todo o hedonismo herdado da civilização grega, também sustenta um tipo de escravidão, que é exercida pela mídia, pelo capitalismo, que contraria a essência da liberdade, elevando-a ao nível da limitada concepção burguesa. A nossa sociedade não é totalmente livre, como está escrito na cartilha da Democracia. Toma-se a liberdade do cidadão quando esse fica impedido de agir em virtude de sua limitação de posses, isto é, bens econômicos. Assim, a liberdade também é utópica, e ainda mais alienante visto que há uma concepção ilusória arraigada em nossa sociedade de que o cidadão é livre.
- Dizia Pe. Vieira: "Palavras sem obras, são tiros sem bala: atroam mas não ferem". A Democracia que existe é apenas o discurso batido do político do início: belo na teoria, mas não abre espaço à ação, ao pragmatismo político idealizado pelas palavras. Dizem que o grande problema do regime democrático é que ele é exercido pelo homem e daí vêm várias questões filosóficas e existenciais. Seria melhor que tivéssemos no poder uma formiga em vez de um homem? Claro que não. Mesmo porque, dessa forma, teríamos uma sociedade de castas como a das formigas... mas não somos formigas, e essa é a principal diferença. Desde que o homem descobriu "a árvore do conhecimento", passou a ter um discernimento individual, a decidir sobre si mesmo, reivindicar sua autonomia moral. Obteve a capacidade de pensar e mudar a realidade, e é isto o que nos faz diferentes em nossa organização. E o sonho de Clístenes, quando posto no mundo real, não vingou. Estará a humanidade fadada à escravidão e à asfixia social?
Marcela Baiocchi é estudante do 3o. ano do 2o. grau do Colégio Agostiniano de Goiânia (GO).
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