O que é ser filósofo?
Luiz Roberto Cupertino
- O que mais me chamou a atenção no último Integração não foi um artigo. O que me pareceu digna de um comentário foi a carta de uma tal Sofia Heiam, estudante de filosofia de uma tal USP, pessoa essa da qual não conheço a cor nem o estado civil, mas somente algumas palavras de elogio aos articulistas deste jornal e algumas de péssima ordem se referindo a mim, o único não merecedor de suas gentilezinhas.
- Essa senhora me acusa, sem conhecer-me, de advogado do diabo, pois sou defensor de causas de caráter duvidoso. Parece-me que a senhora Heiam não tem em seu departamento de filosofia a disciplina Lógica, cujas regras impedem pessoas empolgadinhas de escreverem coisas sem sentido. A minha "futura colega de profissão" possui um pensamento bastante atrapalhado, a julgar pelas suas poucas frases. Primeiramente, para que algo seja diabólico é preciso que já esteja determinado o seu caráter. Nada que é duvidoso, ou mais que duvidoso (isso não tem sentido nenhum, pois sugere que entre o que é duvidoso e o que não é há um meio termo) pode ser mal, entendendo por mal aquilo que a nossa filósofa quis dizer com diabo. Eu, no caso, habito o inferno, e sou procurador do diabo.
- Além da contradição trivial contida na parte da carta que se refere a mim, e que, não sei o motivo, não foi nominalmente referida, há uma outra confusão que assombra as pessoas que já possuem alguma vivência séria no estudo da "filosofia". Como se houvesse algo bastante preciso e claro, um consenso geral, sobre o que seja a filosofia. A nossa simpática amiga, de palavras meigas e delicadas, desde que eu não faça parte, deve concordar comigo que não há um conceito mais confuso e obscuro do que o conceito de "filosofia". A senhora, por exemplo, Sofia Heiam, quer escrever sobre o amor. Eu, Luiz Roberto, penso que escrever sobre o amor não é tarefa dos filósofos. Para isso possuímos os poetas, como para falar de astros possuímos os astrônomos, para pessoas sérias, e os astrólogos, para pessoas vazias. A área que me dá algum interesse hoje em dia, já cansado de falastrões e picaretas, é a lógica e o trabalho analítico. Essa é a única área onde não se permite a entrada de pessoas de pensamento confuso, ansiosas por passar ao grande público devaneios sobre o amor, a morte, o suicídio, e todos estes temas interessantes individualmente, e inúteis coletivamente. Recomendo que a senhora dê uma lida em alguns lógicos, ou mesmo alguns analíticos. Eles vão tirar de sua cabeça esse feitiço causado pelo Banquete.
- Gostaria de dizer ainda que já foi o tempo em que eu me considerava um filósofo, pela mera condição de ser um estudante de filosofia. Não tenho nada escrito, nenhuma testemunha do meu pensamento, nada de original, por enquanto. Conheço inúmeras pessoas que têm diploma em filosofia e não são sequer pessoas capazes de escreverem um texto claro. Se não tomar cuidado, querida senhora Heiam, o seu caminho é bem próximo deste.
- Para encerrar este desabafo, gostaria de dizer que a inferência de que eu quero somente causar rebuliço por julgar-me um filósofo é inválida. Já disse que não sou filósofo, por isso não tenho nada em comum com a senhora. Não estudo na USP, e nem gostaria de estudar (aliás renunciei a essa escolha e nem sequer quis prestar vestibular nessa instituição), pois não gostaria de ser catequizado por pessoas como Marilena Chauí, rainha da mídia, e dona do livro mais elogiado do cenário pop filosófico, que no entanto ninguém leu, e ainda por um departamento tradicionalmente estruturalista e pedante. Aliás, se eu tenho vocação para advogado do diabo, a senhora tem vocação para Mr. M, já que ninguém tinha me dado, tendo como fonte um único e simplório textinho, todo o catálogo de objetivos malignos que guardo secretamente, todas as fraquezas espirituais que carrego de forma tão lamentável. Eu não sou, senhora Heiam, a pessoa adequada para se fazer brincadeirinhas com palavras.
Luiz Roberto Cupertino é estudante do 5o. período de filosofia da UCG.
- Mande um e-mail para a direção do jornal.
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