Um foca em dia de autódromo
Luís Cláudio Guedes
- Autódromo Ayrton Senna em Goiânia. Domingo, 29 de agosto, data da terceira etapa do Campeonato Brasileiro de motovelocidade. É a minha tentativa de estréia num gênero do jornalismo com o qual possuo pouca afinidade e vários estereótipos. Um deles: será que a soma dos neurônios de uma loira e de um repórter esportivo somam juntos o primeiro número inteiro? O rádio esportivo goiano com os seus espécimes curiosos induz a tais exageros. Mas, claro, trata-se de um exagero. Vamos à luta...
- Sou novato no pedaço e até a postura parece me trair. Câmara fotográfica Pentax emprestada pelo professor de fotojornalismo Thomas Hoag pendurada no pescoço e o gravador gentilmente cedido por um colega do curso à mão, devo dizer que não me sinto nada confortável. Tenho a sensação de que as pessoas prestam excessiva atenção em mim, finjo que não é comigo e sigo em frente. Primeira decepção: o piloto Ricardo Arara, um dos corredores da prova e conhecido de um conhecido meu, não deixara a credencial tão esperada. E agora? Tanto sacrifício para nada, vou ter que ficar do lado de fora como o mais comum dos mortais torcedores? Pelo jeito comecei mal a minha trajetória (que espero seja breve) de repórter esportivo.
- Na aflição do momento e quando já dava por perdido o meu exercício de fotojornalismo, lembrei-me da carteirinha de estagiário da Rádio Universitária, até então só exibida a alguns amigos mais chegados como prova inconteste da minha admissão no restrito "clube dos homens de imprensa". Acho o meu salvo conduto e, nova decepção, o prazo de validade está vencido. Alguém ali do lado logo sugere o jeitinho brasileiro e eu, claro, vou lá na portaria ver se cola. Dedo polegar em cima da frase "Prazo de validade: dezembro de 1998" me apresento ao segurança e aviso que tenho uma entrevista marcada com o piloto Ricardo Arara. O moço reluta alguns segundos, mas acaba autorizando a minha entrada. Meu suspiro de alívio nem chegara às narinas, quando um engraçadinho diz ali do lado:
- - Êpa, essa aí não vale não!
- Solto um muda imprecação. Deu tudo errado, fui logo pensando. Quando volto a cabeça para o lado de onde partira a voz, um sujeito moreno e meio franzino usa da tradicional corrupção brasileira, nossa instituição de cinco séculos, e emenda:
- - Essa daí só vale se você arranjar uma camiseta desta que está vestindo prá gente.
- Era só uma brincadeirinha do gaiato. A camiseta da torcida organizada que eu ganhara ainda há pouco na barraca do Arara e que agora exibia orgulhosamente quase me causa problemas. Foca deve ter cara de mané, só um neófito paga um mico destes. Lembrei-me instintivamente de alguma coisa chamada ética e desci aliviado a ladeira que me conduziria aos boxes, para minha via-sacra de repórter-torcedor ou vice-versa. Próximo passo: fotografar as motos em movimento congelado e panning. Antes, porém, mais um teste de fogo para minha carteirinha vencida. O segurança do portão que dá acesso as boxes me olha da cabeça aos pés, detém-se um pouco no equipamento que carrego e acaba abrindo a portinhola. Ufa!
- Chego na beira da pista no momento em que é dada a largada para uma prova (fico sabendo, depois, que se trata da categoria 125 cilindradas, vencida pelo piloto da casa Cristiano Vieira). Ao meu redor, uma meia dúzia de fotógrafos e cinegrafistas transitam exibindo uma espécie de colete que os identifica como profissionais da imprensa. Temendo ser abordado por alguém que cismasse com o fato de não estar devidamente paramentado com o tal colete vermelho, tratei logo de fazer meu exercício fotográfico. Daí para frente foi tudo mimetismo.
- Os fotógrafos correram para o outro lado do Autódromo e eu fui junto. Ali, numa curva que descobri depois ser a do S, gastei em poucos minutos o rolo de filme cedido pela Universidade. Graças ao meu açodamento e ao instinto gregário muito comum aos focas, perdi a oportunidade de fazer boas fotos. A distância da pista onde as motos passavam voando baixo tomada pelos experientes raposas velhas das corridas não se aplicava ao meu caso. Sem o recurso do zoom, as motos aparecem nas minhas fotos como um mero detalhe na imensidão daquele pedaço do cerrado. O professor Thomas dá a sentença já durante o processo de revelação. Com sotaque carregado, ele diz:
- - Seus fotos não ficaram boas.
- De volta ao Autódromo. Uma volta pela ala VIP e, finalmente, vejo o glamour da motovelocidade. Familiares e convidados da organização, dos patrocinadores e dos corredores, além de empresários do ramo e a imprensa, desfilavam por ali. Um seleto time de garotas trajando deliciosos conjuntinhos de malha vermelha como o logotipo da coca-cola fez com que eu me esquecesse por algum tempo o motivo, digamos, estritamente profissional da minha presença naquele local. Os salgados e canapés eram fartos, mas a contundência com que alguns vips disputavam os poucos refrigerantes e cervejas que apareciam me fez buscar outros ares.
- O Autódromo era uma festa só. Converso com um grupo de garotas que representam uma concessionária de motos da cidade e descubro que o cachê para que exibam aqueles maravilhosos sorrisos é de cinqüenta reais. Noutra ponta da ala VIP, duas senhoras elegantes parecem por a fofoca em dia, alheias aos roncos dos motores. Fora da área do Autódromo, lá na rodovia, passam, a pequenos intervalos de tempo, grupos de motoqueiros exibindo suas máquinas e piruetas numa roda só.
- Numa pequena elevação do terreno próximo às arquibancadas, fica o local reservado para as barracas das equipes e das torcidas. Como a idéia é registrar tudo o que está acontecendo, vou lá conferir o agito. Dos carros equipados com aparelhos de som envenenados sai uma mixórdia ensurdecedora de ritmos. Enquanto a moçada dança e bebe sem parar, outros tentam ganhar uns trocados. Um sujeito alto, caracterizado como palhaço, grita as qualidades de uma linha de produtos automotivos. Motos enormes e estranhíssimas e outras nem tanto, serpenteiam entres os transeuntes. A paquera corre solta. No lado povão da festa não falta animação, apesar do sol escaldante.
- Volto para a área dos boxes disposto a falar com Ricardo Arara. Não é sem dificuldade que descubro a área que destinaram ao meu entrevistado. O boxe 2 fica do lado oposto à torre de imprensa. Até então eu não conhecia ainda o piloto Arara, por isso decidi observar um pouco antes de abordar qualquer pessoa no boxe 2. A impaciência de um sujeito que senta e levanta a todo instante, agacha-se junto a uma moto enorme estacionada no meio do cômodo e parece querer sussurrar alguma coisa àquele objeto inanimado, não dá margem a dúvidas. Lá estava o meu entrevistado.
- Na primeira oportunidade, faço um sinal para o piloto e conto a minha intenção. Ele explica que a sua prova começa em quinze minutos e que aquele não é um bom momento para entrevistas. Combino outro local e horário e me dirijo para o local da largada para esperar pela prova Supersport 600. Mais um mico desses e eu monto um zoológico.
- A emoção do dia ficou por conta da participação de Ricardo. Descubro, tarde demais, que as motos desta categoria renderiam fotos incomparavelmente melhores. Existissem mesmo lâmpadas mágicas e gênios solícitos e eu pediria um filme fotográfico. Foi complicado o meu dia de foca. Compro uma coca-cola, dou uma pausa e considero positiva minha aventura domingueira. Afinal, de manhã, quando acordei, não sabia nem o rumo do Autódromo. O refrigerante me faz lembrar as moças de vermelho, mas é hora de voltar. A missão não está concluída, falta a entrevista. Começo a sentir uma leve empatia pelos repórteres esportivos.
Luís Cláudio Guedes é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para Luís Cláudio Guedes ou para a direção do jornal.
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