A nossa geração

Marco Aurélio Vigário

Tarde da noite. A televisão ligada e o Mário Prata falando sobre o seu último livro. Ele dizendo que foi perceber somente quando o livro já estava pronto que aquele era o retrato da sua geração. Será que não é muita pretensão dele achar isso, não? Talvez.

A entrevista acaba e desligo a TV. Desligo, mas continuo pensando naquilo. Fico imaginando daqui a alguns anos, eu tentando achar a marca da minha geração. Qual será ela? Qual será a nossa identidade?

É claro que tentar achar a marca de uma geração é buscar um rótulo para um grupo de pessoas que viveu um período histórico. Embora com interesses diversos, estas pessoas nasceram, cresceram e, de uma forma ou de outra, se relacionaram, estiveram envolvidas no fazer o mundo girar.

Como muitos já disseram, penso que a minha geração não tem grandes ideais coletivos, é descrente da política e dos políticos. É a geração do cada um por si, cada um buscando seu lugar ao sol. Todo esse blá-blá-blá está resumido naquela frase que ouvi há algum tempo atrás e que poderia ser a síntese da nossa crença na força da cidadania: "A única forma de mudar algo é ficar bem bem famoso ou bem bem rico."

Nós todos, um dia, correremos o risco de sermos rotulados. Daqui a uns trinta anos, poderemos ser chamados de geração cara-pintada, ou de geração sem-cara, ou ainda de geração de-todas-as-caras. Creio, sobretudo, que seremos vistos como a geração televisão. Ou seja, a geração que, com os pais trabalhando fora, tirou de um eletrodoméstico grande parte das suas experiências, dos seus referenciais e dos seus valores. Afinal, nascemos e crescemos num período de consolidação desta tecnologia. Exatamente no momento em que a tela mágica invadia as nossas casas e fincava bandeira definitivamente. Somos, assim, os seus primeiros filhos legítimos. Os mais velhos são filhos adotivos, mesmo que muitos neguem o parentesco.

Apesar de sentir, de vez em quando, saudades de épocas que não vivi, não quero dizer, com isto, que fazemos parte de um tempo menos interessante. Não vou
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