Socialismo e Desesperança
Ricardo Stumpf
- Respondendo ao artigo do estudante Luiz Roberto Cupertino, intitulado "O Milagre do Socialismo, o autor comete muitos erros e muitas injustiças contra o socialismo, em seu artigo desesperançado, embora tenha razão em muitas coisas. Vamos começar pelos erros.
- O socialismo não matou tanta gente como ele diz. Certamente nem chega aos pés do nazismo, que promoveu matanças sistemáticas e industriais de judeus, comunistas, ciganos, homossexuais e outras "minorias". Certamente, se tivessem dominado o mundo passariam também à eliminação de latinos e negros, raças inferiores, segundo eles.
- Calcula-se que Stalin tenha matado cerca de 200.000 pessoas na União Soviética. Em outras revoluções, como a cubana, houve uns três mil fuzilados. Nas últimas, Angola, Moçambique, Vietnã e Laos, já não houve mais fuzilamentos. O Camboja foi uma exceção, PolPot matou a metade da população, numa política genocida de acabar com as cidades e mandar a população para o campo. Quem derrubou esse governo genocida foram os próprios comunistas, do Vietnã, que invadiram o país. Na China eu não tenho dados.
- Mas essa é uma conversa muito sem nexo, saber quem matou mais ou menos. Bastava a morte de um ser humano, para condenar todo um sistema, portanto, não estou aqui defendendo os fuzilamentos nem Stalin, nem nenhum tipo de execução com justificativas políticas, mas apenas contestando a afirmação de que o socialismo matou mais do que qualquer outro sistema. Isto não é verdade.
- Se formos calcular o número de mortes, certamente os maiores assassinos foram os colonialistas, ingleses, franceses, portugueses e espanhóis, que dizimaram povos inteiros para implantarem seu sistemas coloniais e criarem países como o nosso.
- Isso se aplica modernamente ao capitalismo imperialista, principalmente americano, com suas "políticas econômicas", seus massacres, bombardeios, bloqueios, etc, que jogam povos inteiros na miséria (vide a situação da África hoje em dia, conseqüência da pilhagem colonial e imperialista), levando-os a morte pela fome, pelas guerras, pelo desespero, isto sem falar no massacre cotidiano nas grandes cidades pós-modernas, onde a política neoliberal joga as populações mais pobres numa luta selvagem pela sobrevivência, em meio ao tráfico de drogas e toda sorte de banditismos. E a Igreja católica, quantos matou na fogueira, nos massacres de protestantes (tipo Noite de S. Bartolomeu) ou apoiando secretamente Hitler? Se sempre houve violência na história da humanidade, no entanto, o século XX foi pródigo neste aspecto. A industrialização foi uma das transformações mais profundas que a humanidade já sofreu. Para mudar sociedades inteiras surgiram sistemas totalitários, entre os quais o nazismo e o stalinismo, que fizeram o serviço sujo, cada um à sua maneira, e a serviço de determinadas classes sociais.
- O nazismo a serviço de classes dominantes e o stalinismo, a serviço de uma burocracia estatal, que se apropriou da revolução dos operários e camponeses, na Rússia.
- No capitalismo liberal também houve, e ainda há, muito autoritarismo, com uma democracia dominada pelo poder econômico, que mantém os povos submetidos ao seu controle.
- Em todo o terceiro mundo houve ditaduras industrializatórias e modernizadoras, como a de Vargas e a dos militares no Brasil, que também mataram e torturaram.
- Mas o socialismo não nasceu com Stalin. Socialismo é uma categoria política, como democracia. É um ideal, que as sociedades se empenham em atingir, mas nem sempre conseguem.
- Certamente existem vários caminhos para atingir esse ideal. Nesse século predominou o socialismo totalitário. No século passado havia predominado o socialismo utópico, que foi incapaz de enfrentar a violência da burguesia, por isso sendo substituído pelo Leninismo, que propunha a violência armada, como única forma de derrotar burguesias, que não hesitavam em massacrar para manter seu poder.
- Eles tinham razão neste aspecto, mas se esqueceram que através da violência não conseguiriam construir sociedades livres, pressuposto para um verdadeiro socialismo, e se tornaram regimes duros, engessados pela burocracia, decadentes, e que finalmente ruíram diante da sua própria incapacidade de se reciclar.
- Portanto, falar de ditadura e violência como sinônimo de socialismo é um erro e uma injustiça com um movimento, que resgatou povos inteiros do atraso e da submissão mais cruel a colonialismos terríveis (como o dos ingleses na China, que ensinavam os chineses a dar as crianças do sexo feminino para serem comidas pelos porcos, porque não serviriam como mão de obra para eles). Comparem a China de hoje, com a Índia, onde não houve a revolução e vejam o que os comunistas fizeram pelos povos. Não se pode deixar de reconhecer a sua contribuição civilizatória, embora seu modelo político autoritário esteja esgotado. Agora vamos aos pontos em que Luiz Roberto tem razão.
- Os socialistas não estão sendo capazes de reciclar seu modelito, e suas lideranças se tornaram arrogantes e vazias. Não têm proposta para nada. Lula é uma piada, e nem acho que seja realmente socialista, mas faz o gênero "operário zangado" para assustar a classe média e ajudar a direita a ganhar as eleições. Não dá mesmo para levar a sério lideranças como ele.
- Apesar disso sabemos que a esquerda dispõe de homens capazes de reverter esse quadro, reabrindo um debate sobre um novo socialismo, democrático, autogestionário, um socialismo pós-industrialização, mas um socialismo ainda, onde o povo não seja massa de manobra de grupos de ricos, ou de países ricos, que os explorem e massacrem à vontade, como hoje.
- Apesar de todos os erros cometidos pelo socialismo, ele ainda é a esperança da humanidade contra a ignorância e a submissão. A dificuldade está em vencer o autoritarismo arraigado nas mentes dos dirigentes dos partidos de esquerda, que morrem de medo de discussões políticas que fujam ao seu "controle".
- Mas acho que vamos sair dessa e poder propor um mundo melhor, que nos leve a superar essa sociedade violenta e predatória em que vivemos hoje.
Ricardo Stumpf é arquiteto formado pela UFRGS e com mestrado na UFBA.
- Mande um e-mail para Ricardo Stumpf ou para a direção do jornal.
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