Canções de setembro
Jardel Sebba Filho
- Costumo me achar frio e desumano toda vez que percebo sentir mais saudades dos lugares que das pessoas. Mas é verdade. Ruas e esquinas não dizem adeus, não têm a ânsia que as pessoas têm, pelo menos as que me rodeiam, de ir embora. Deixam de te pertencer, é verdade, se desfiguram, mas permanecem no mesmo lugar, para que você possa um dia voltar e sentir saudade da época em que aquilo tudo foi seu e contou sua história. Precisava com urgência que algumas pessoas fossem como as esquinas, que estivessem em algum lugar para onde eu pudesse voltar e lembrar de quando contaram minha história, muito mais do que me pertenceram.
- Na verdade, queria que as pessoas fossem como as grandes avenidas, aquelas que servem como referencial e nas quais se encontra de tudo, menos a medida exata do que exatamente se está procurando. Avenidas com uma multidão diferente a cada dia, com pressa, urgência, perfeitas para se perder ou se esconder. Lugares que vão estar sempre lá, com ou sem você. Exatamente como na minha relação com as pessoas, eu costumo precisar de ruas que não precisam de mim, e esta talvez seja, aos meus olhos, a maior qualidade que ostentam. As ruas e as pessoas. De qualquer forma, é uma benção poder voltar a viver num lugar onde existem essas duas coisas.
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- Todo redirecionamento pede uma trilha sonora que o pontue e perpetue. Nesse, a canção principal é de Kurt Weil, com letra do dramaturgo Bertold Brecht, na voz de PJ Harvey. Composta por dois alemães, ela quer saber o que, depois da guerra, nós vamos dizer para a esposa do soldado. Me faz pensar sobre todas as situações nas quais não há nada a dizer, mas se espera por uma palavra. Intervalos de jogos de futebol, velórios, desastres, traições, amores que terminam, reencontros, erros fatais, ou seja, quando tudo está dito, mas insistimos em dizer algo mais. Nada que possa ser dito à esposa do soldado conforta, como quem me abandona não explica nem justifica, como a descrição do lance que foi visto repetidas vezes por diferentes ângulos pelas câmeras de TV. Se expressar bem, rebuscada, espontânea ou intuitivamente, todo mundo sabe, difícil é saber a hora de calar. É o que mais tenho feito.
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- Na faixa seguinte, depois de uma longa introdução, Bernard Summer agradece a ela por não vir conversar com ele, pois vive com o medo dela e da certeza de saber o que sempre acontece. Como sempre, meus ídolos explicam melhor o que acontece comigo que eu. Palavras perfeitas. Queria pertencer a cada multidão que encontro, e são muitas, mas tenho o medo próprio de quem já se convenceu incapaz de lidar com as pessoas. Ah, a certeza de saber o que acontece... A repetição matemática das inseguranças, das frustrações, dos fracassos em todos os momentos nos quais me aventuro em algo que não tenho o menor talento nem experiência, me relacionar com o resto do mundo. A mudez é o meu exército derrotado sem ter ido à guerra, por saber que lá a derrota o espera.
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- Fechando esse disco inacabado, um convite para sair numa voz rouca. Uma nova tela de pintura para um lugar triste e antigo. Tom Waits quer um "amor de transfusão", a intensidade do sangue, ele veste uma gravata, ela um vestido, e isso basta. Uma fresta de esperança que só sobrevive, teimosamente, na novidade. O motor para que tudo ainda faça sentido, e seja levado em frente. A simplicidade do acaso, que esporadicamente faz a vida valer a pena. Nesses dias frios, Tom Waits é o deus das pequenas coisas, da gravata, do vestido, do detalhe que insiste em poder acontecer.
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- Eu não consigo explicar nada. Ainda bem que já disseram por mim.
Jardel Sebba Filho é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para Jardel Sebba Filho ou para a direção do jornal.
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