Quando a democracia é uma ditadura
Leandro Quintanilha Santana
- A democracia é um sistema de organização política que agrada tanto aos mais letrados, quanto aos mais ignorantes. Representa a supremacia da maioria sobre a minoria. Parece ser, a princípio, a forma mais justa e inteligente de se viver em comunidade. Talvez seja. A fascinação que causa em seus partidários é, possivelmente, reflexo da revolta acumulada num mundo onde a maioria trabalhadora é explorada por uma minoria dominante. Mas a democracia não é assim tão perfeita como pregam seus apaixonados defensores. Ela tem suas limitações. A democracia legitima, muitas vezes, a tirania da maioria sobre as minorias (não a econômica privilegiada, mas as étnicas, religiosas, sexuais e diversas outras).
- As escadas são um meio de acesso prático e útil para a maioria, que pode andar. Para aqueles que se locomovem com cadeiras-de-rodas, no entanto, as escadas representam uma barreira intransponível à sua dignidade. Pobres daqueles que não gostam de futebol, carnaval e feijoada, num país onde esses são os grandes símbolos nacionais. Terão que conviver com esses três estereótipos atribuídos à identidade do brasileiro por toda a vida. Cedo ou tarde, terão que assistir na TV a uma final de Copa do Mundo ou a um desfile da Mangueira. Não faltará, também, um almoço na casa de amigos ou de parentes, em que o prato servido pelos anfitriões seja nada mais, nada menos que uma "suculenta" feijoada.
- Os poucos ateus desse Ocidente cristão certamente terão que acompanhar, num velório qualquer, um "Pai Nosso" ou uma "Ave Maria". A situação pode ser ainda pior, se a família do "herege" tiver o hábito de rezar unida antes das refeições. Estará condenado a sufocar, diariamente, suas convicções pessoais. Infelizes também são aqueles que estão acima do peso. Passarão por constrangimentos aonde forem. Para eles, não haverá poltrona no teatro ou no cinema. Ficarão presos nas roletas de ônibus. Pobres dos homossexuais, que não têm o direito de namorar em público. Têm de se esconder em guetos e boates segmentadas.
- A democracia pode ser uma forma de autoritarismo, por mais estranho que isso possa parecer. A maioria pode ser muito cruel e intolerante com as minorias. Grandes nomes das artes e da ciências, como Vincent Van Gogh e Sigmund Freud, tiveram que lutar contra a opressão conservadora da maioria. Uma idéia defendida pela maioria não é, necessariamente, a melhor. Às vezes, é exatamente o oposto. Nem sempre o senso comum tem bom senso.
Leandro Quintanilha Santana é estudante do 2o. ano de jornalismo da UFG.
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