Deixemos de ser racionais

Giordano Maçaranduba

A ciência tem se baseado muito em caracteres bastante restritivos, principalmente no positivismo, no estruturalismo e em vários paradigmas dominísticos ou determinísticos. Após o iluminismo, e mesmo depois dos anti-iluministas, a razão tomou um caráter dominante nas ciências e nem mesmo o surgimento das teorias psicológicas conseguiram abrandar essa irascível predominância. Não haveria um maior problema se a racionalidade fosse entendida num contexto mais amplo, que contemplasse dois instrumentos poderosos na descoberta científica: a sensibilidade e a intuição.

Diversos cátedras da ciência admitem que estas duas poderosas ferramentas muito lhes ajudaram na descoberta de vacinas, da teoria da relatividade ou até da teoria do caos, a primeira eminentemente prática, as outras duas amplamente teóricas, mas é claro que nenhum deles admitiu efetivamente algum deles como método ou instrumento científico. É claro que o acaso por vezes acaba sendo um instrumento mais efetivo que qualquer outro, mas ignoremos isso porque esse já é um fator intrínseco a qualquer ação e resultado. A imprevisibilidade é uma mínima parcela considerada em qualquer experiência razoável, mas pode ser tanto menor quanto mais se utiliza mais completamente as instâncias racionais, mesmo as vistas com um certo preconceito como a intuição e a sensibilidade.

Essas duas partes (meio ovelhas negras) da racionalidade trabalham com uma área do ser humano que abriga um imenso potencial e uma potência absoluta, até porque devido a sua pouca utilização. É um potencial resguardado, de uma praticidade impressionante (é verdade que está no mesmo terreno das superstições, dos preconceitos e da fé porque não tem uma racionalidade convencional ou não se prova por esta, mas se acredita) e que será o grande trunfo desse novo milênio que muitos prevêem (eu também), sem nenhum mérito, pois é óbvio que será dominado pelas mulheres. Talvez a recriminação desses duas maravilhosas e milenares sabedorias tenha tudo a haver com o machismo que domina a sociedade, talvez tenha tudo a ver com mediocridade mesmo, talvez até tenha lógica pensar como resultado das duas coisas já que elas têm tudo a ver.

Talvez eu seja só mais um louco. Um demente comum como outro qualquer, mas insisto que essas duas características classificadas por Freud ou Jung como parte da personalidade feminina ou do eu-feminino, são o fundamental para uma compreensão mais humana da ciência, mais holística, mais completa que certamente conseguiria adequar em medidas razoáveis as duas partes distintas: o materialismo e a metafísica. A partir daí o homem saberá inteligentemente voar com os pés no chão ou aterrizar euforicamente nas nuvens da sabedoria. O homem aprenderá uma outra não-linearidade tão sucinta e delicada que tornará linear tudo o que ainda não tem uma seqüência tão logicamente determinada e dará uma nova sábia incerteza ao que era tido como racionalmente certo e tudo será mais previsível, inclusive os erros. A percepção não linear e não catequizada da experiência, só tem a colaborar com o raciocínio completo e saudável.

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Obs.: Gostaria de parabenizar o Eduardo Horácio pelo seu lúcido e excelente texto (O mundinho dos espertos) e lhe comunicar que concordo com você ipsis literis, de igualmente expor minha alegria diante da boa percepção de Luís Cláudio (Carta aberta aos homens de bem), de constatar a boa argumentação do texto de Alenor Alves (Manicômio, mentiras, mercado, mesquinharias e mestres) e de demonstrar minha admiração pelo domínio do tema demonstrado por Gilberto Gomes em seus dois textos consecutivos, embora eu considere que seu primeiro tenha sido melhor ("Tatibitate" e "O amor no templo das Flores"). Por fim gostaria de especialmente parabenizar à Melissa Cristina pelo seu esplendoroso texto (Mobilizados pelo pecado capital).

Giordano Maçaranduba é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.

Mande um e-mail para Giordano Maçaranduba ou para a direção do jornal.

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