Uma bomba vai explodir
Nazareth L. de Paula
- Há alguns dias, eu vi o sofrimento em sua forma mais brutal. Ao ver aquela mulher ali, sentada em meio à multidão e chorando desesperadamente, pude, mais uma vez, admitir a mim mesma o quanto sou inútil. Eu e toda a sociedade. Isto não se faz, alguém tinha que parar e tentar confortá-la um pouco...mas ninguém parou e eu também não parei. Alguns se aproximaram e, pelo que pude notar, mais para pressioná-la do que para ajudá-la. Certamente diziam que ela precisava procurar um trabalho e levar uma vida normal. Ora, "não é correto uma mulher daquela idade permanecer ali, de forma indigente, suja, e, como se não bastasse, chorando".
- Aos poucos fui me distanciando, mas aquela imagem permaneceu ainda em minha mente por um bom tempo. Já vi muitas pessoas chorarem, e também já chorei muito, mas aquela senhora, em especial, me tocou profundamente. Eu já a havia visto duas vezes- uma, pedindo esmolas, e outra, deitada na calçada, enrolada em um cobertor xadrez. Pode parecer estranho, mas costumo reconhecer os mendigos, principalmente aqueles que, por algum motivo, me chamam a atenção - não pela fala ou gestos, mas pela expressão e pela fisionomia. Aquela mulher apenas olhava pro infinito, talvez agarrada a péssimas lembranças ou preocupada com seu futuro incerto.
- Quando a vi chorando, agarrada ao cobertor xadrez, ela não estava na calçada e sim sentada em plena avenida. Estava próxima ao meio-fio e acho que procurava coragem pra se aproximar da parte central e, assim, deixar que os carros fizessem aquilo que ela não tinha vontade, mas se via obrigada a fazer. Seu cabelo estava todo desalinhado e seus pés estavam muito sujos. Ela certamente sentia vergonha e pensava que tudo poderia ser melhor, que poderia estar também caminhando apressada e sorridente como as outras pessoas, e que poderia ter um lar, para onde pudesse voltar todos os dias e encontrar uma família feliz. Mas não, ela estava ali, desprotegida, com fome, suja e ninguém lhe levaria para casa, porque ela não tem casa.
- Seu choro era tão intenso e parecia tão profundo que o senti em mim mesma. Por que ela chorava?! Não era apenas por fome, dor física ou cansaço - seu choro parecia vir daquilo que chamamos "alma"... Ela certamente não queria morrer. Uma pessoa não chora daquela forma se não tiver muita vontade de viver. Mas, como? Como continuar a viver daquela forma?
- Quem havia sido aquela senhora em um passado distante?! Será que ela teve uma família, ou amigos? Onde eles estão?! Por que um ser humano precisa chegar àquele ponto? Eu não consigo compreender por que o mundo funciona desta forma e por que as pessoas olhavam para aquela mulher como se ela fosse um animal ou estivesse cometendo um crime, e compreendo menos ainda por que as pessoas me acham maluca ou ingênua, por ter reconhecido uma mendiga e ter-lhe roubado um pouco de seu sofrimento.
- Naquele dia, eu pensei "por que niguém pára e ajuda esta senhora?" e percebi que já me encontrava a alguns metros de distância, e que não havia parado. Eu me vi, então, repetindo a mesma pergunta a mim mesma. Por que eu não parei para ajudá-la?! Por quê?!! Não foi por falta de vontade, nem por falta de tempo. Foi porque tenho medo de me comunicar de forma quase verdadeira, sem fingir ser superficial como os outros.
- Quem construiu este medo em mim? E até quando vou carregá-lo comigo? Imagino que, desta forma, o mundo não deve continuar por muito tempo. Esta bomba tem que explodir um dia. Isto não é vida, é uma prisão. Os ricos estão presos em seu dinheiro, os pobres estão presos em sua miséria, outros estão presos em seu silêncio, muitos na loucura ou na ignorância, e são inúmeras as formas de prisões que cercam o homem. Mas, um dia, acredito que todos irão gritar ao mesmo tempo, e se abraçar, e se esmurrar, e aí, com certeza, uma bomba vai explodir...
Nazareth L. de Paula é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.
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