Lembranças de não-ser (Ao meu Arcanjo, o poeta capixaba Miguel Marvilla)
Rosângela de Souza Melo
- A menina se acomoda em sua poltrona marcada e, da janela, observa o semblante daquele homem que ainda há pouco a tinha em seus braços. Seus olhos pareciam lhe dizer que aquele seria, talvez, o último momento em que poderia expressar-lhe o significado do silêncio que calara em sua boca durante os poucos dias que passara em companhia daquele solitário poeta. Ele, lágrimas nos olhos, lhe dizia apenas com um sorriso que este sereno sentimento iria ainda pairar por seus ares, indo além do que sentia no corpo cansado pelas noites não dormidas.
- Ela havia invadido sua vida de forma tão sutil, que nem se dera conta do momento em que ela passara a lhe desvendar os desejos - até então secretos - da alma reclusa a qual possuía. A lânguida imagem daquela menina permaneceria desvanecida em cada canto do seu olhar, em cada poesia de seus livros já esquecidos. Prometera ir de encontro a ela para que pudessem desaguar no outro os beijos e abraços ainda sufocados. Mas da verdade ele já sabia: tal promessa não passaria senão de alguns versos - um conto talvez - que ele confidenciaria mais tarde às suas composições. Ela não sabe.
- Ele a havia pego em tão repentina surpresa, que ela cedera em sua sanidade para ir descobrir nos braços distantes deste homem os prazeres de se tornar mulher satisfeita em todos os seus desejos, até então desconhecidos por si própria. A descoberta de si a silenciara por quase todos os raros instantes de lucidez em que encontravam-se abraçados, ainda nus: ele, a recordar os amores já vividos; ela, a ouvir as confidências - quase desabafos - daquele homem que então a ensinara como é o amor. Ele não sabe.
- Durante tudo, cada palavra, cada gesto, cada suspiro, subentendia o confuso sentido de estarem assim tão um. Há poucos dias se eram estranhos. Em poucos retornariam a ser. Era aquele momento apenas que os tornava "os". Antes, nada foram. Depois, nada seriam.
- Ele de pé. Ela na janela.
- Ela partiu deixando com ele aqueles beijos e abraços que outrora ficaram guardados para "um outro dia", que jamais viria. Agora, os dias de lembrar mal terminaram e esquecer já começou.
- O tempo passou e com ele também os sentimentos confusos e a angústia vazia em não terem mais certeza do que poderia estar por vir. Remoendo os pensamentos do que fora aquela menina, ele se descobre imóvel, num tempo que parece não andar. É aí onde os resquícios dos desejos de ambos se encontram, estáticos, em busca de um minuto que seja de sincero sorriso. Esta é a memória de não-ser, que o guia pelo lento e complacente caminhar do tempo em que estes imóveis fragmentos de lembranças parecem compor a mais abstrata de suas poesias.
Rosângela de Souza Melo é estudante do 1o. ano de relações públicas da UFG.
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