Pelo direito à fé
Vanessa Chaves Vieira
- Peço perdão aos leitores que porventura achem que a crítica que venho fazer aqui está um tanto atrasada, arrefecido que parece estar o período de maior efervescência do assunto. Esclareço que o texto chega tardiamente porque a urgência de outros temas fizeram com que esse projeto tivesse de esperar. "Por que não esquecê-lo?", poderiam perguntar alguns. Para a resposta há duas razões. A primeira é o fato de ter prometido essa réplica ao meu amigo Leandro Quintanilha. A segunda é o sentido de dever, guiado pela convicção de que sempre é tempo de trazer à luz o que precisa ser dito. Sem mais delongas - como diriam os antigos - vamos direto ao ponto.
- Esse texto se dirige a todos os ateus, agnósticos e até mesmo céticos que ao longo dos últimos meses vêm se manifestando no Integração contra os preconceitos contidos nos dogmas religiosos ou nos preceitos eclesiásticos. Não se trata de fazer aqui uma defesa da Igreja ou de contestar as críticas feitas. Venho fazer uma denúncia: a do preconceito que os crentes, ou seja, aqueles que têm fé ou professam alguma religião, sofrem por parte dos descrentes nos meios intelectuais, e aqui mesmo, na nossa Facomb (Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da UFG). Pior é perceber que esse preconceito pode partir até mesmo de nossos amigos.
- Baseados em estereótipos, esses "céticos" costumam julgar aqueles que crêem como incapazes de argumentar racionalmente sobre temas polêmicos ou como necessariamente preconceituosos e, por isso mesmo, indignos de sua sinceridade. Como é ruim perceber seguidamente ridicularizações de pessoas que comentam freqüentar uma igreja ou quando expressam pontos de vista influenciados pela fé! Como é triste testemunhar casos de pessoas que simplesmente se afastam de uma outra tão logo sabem que ela pratica algum tipo de culto! Aqueles que já passaram por algum constrangimento desse tipo sabem do que estou falando. É como se se quisesse demonstrar desprezo pelo pretenso "atraso" ou irracionalidade daqueles que enxergam a vida com o viés da fé.
- Ora! Vocês que pré-julgam os crentes estão morrendo do mesmo mal que apontam nos seus textos e críticas: o preconceito religioso. Eu não preciso lembrar que, antropologicamente falando, não há escala evolutiva que defina que o pensamento científico seja mais "avançado" que o religioso, ou vice-versa. Sabemos que são apenas formas diferentes de se interpretar a realidade. E já que entramos no assunto, não custa recordar que as religiões são alguns dos sistemas mais complexos de simbolização - capacidade que diferencia nosso tipo de inteligência da dos demais animais - que existem.
- Àqueles que considerando-se mais racionais e, conseqüentemente, mais sábios desprezam os argumentos religiosos; mais um questionamento. Vocês já pararam para pensar que as idéias e opiniões expressos pelos crentes talvez advenham de um tipo de conhecimento que vocês ainda não detêm? Sim, o conhecimento da fé, que talvez ainda não lhes tenha sido dado. Aquilo que faz com que outros seres humanos racionais como vocês tenham plena convicção da existência de um ser superior.
- Homens como a maior parte dos grandes filósofos que conhecemos, que simplesmente creram ou que procuraram entender a existência de Deus, como São Tomás de Aquino, que procurou comprová-la como fato racional, sem perder de vista, entretanto, que a igreja dos homens se tornava cada vez mais diferente da de Deus. Até mesmo o cético René Descartes, que afirmava que "acima de tudo, devemos duvidar de tudo", afirmou a existência do ser supremo, justificando que "é uma perfeição muito maior conhecer do que duvidar".
- Também Spinoza, outro cético, que concebia o mundo como algo que nunca fora criado nem tampouco seria destruído, para quem o mundo simplesmente "era", concluiu que "Deus é o mundo". O que dizer de Locke, o defensor da tolerância religiosa e para quem "Deus existe como verdade eterna e como eterno testemunho das leis da razão"? Porém, se queremos sair dessas especulações filosóficas, apoiemo-nos no espírito prático das palavras de Kant. "Aceitai uma crença em Deus porque tendes necessidade de tal crença.. As vossas necessidades práticas são mais importantes que as vossas especulações teóricas", dizia ele.
- A própria Bíblia é uma fonte de conhecimento para muitos ainda desconhecida, podendo-se encontrar ali, em livros como o da Sabedoria; Eclesiastes, um tratado empírico de filosofia; e Eclesiástico, respostas práticas para os problemas do nosso dia-a-dia. E já que se trata de questionar, como não vislumbrar nas palavras de Jesus Cristo, "é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus" ou na passagem da multiplicação dos pães, que demonstra que a fartura nasce da partilha, as sementes do que o mundo um dia chamaria de comunismo e cujo culto seria desprezado pelos materialistas?
- Bem... já nos alongamos demais nessas reflexões, quando o objetivo inicial era o de provar que o problema não estava na fé, mas na visão estereotipada que temos dela; mostrar que o pensamento racional não a exclui. Assim, peço aos agnósticos e ateus o mesmo que pedem em seus textos: dêem a nós, crentes, o direito de sermos diferentes. Dêem-nos o direito à fé. Não sejam os Inquisidores da discriminação; não nos atirem aos leões do preconceito e da indiferença. Não sejam exatamente o que mais criticam.
Vanessa Chaves Vieira é estudante do 2o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para Vanessa Chaves Vieira ou para a direção do jornal.
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