Manicômio, mentiras, mercado, mesquinharia e mestres
Alenor Alves Jr.
- Acabo de ler um artigo da jornalista Eliane Cantanhêde na Folha de S.Paulo de 18 de março e começo a pensar sobre as leviandades e os editoriais mesquinhos deste dia. No texto de Eliane, ela fala sobre um círculo vicioso: aumento de preço, aumento de salário, aumento de preço novamente... Ela menciona uma "guerra" contra a reindexação salarial, incorporando às suas idéias a exclusão dos trabalhadores imposta pelo novo sistema de classes (e em nossas classes continuamos ansiosamente na procura por capacitação ou onde empregar o rico dinheirinho do papai, ou seja, ter em quem mandar). O seu artigo termina com uma fria e hermética (tímida) ressalva em prol de melhorias ao trabalhador.
- Me enoja e entristece o distanciamento e a falta de importância dada à distribuição de riquezas, recursos, espaços no país. Lembro-me de que, ainda adolescente, li uma reportagem que colocava o Brasil no terceiro lugar no quesito pior distribuição de renda no mundo. O país se divide em duas parcelas, a dos 90% da população que detém 50% da renda e os outros 10% restantes que ficam com a famigerada metade do bolo. A nação precisa, com urgência, pensar em medidas que busquem a redução, melhoria gradual e planejada deste quadro escabroso.
- A saída poderia ser encontrada, tateada (pois não se vê luz no fim do túnel) por planos de socialização, ou valorização de espaços sociais que visem a emancipação e engrandecimento das pessoas da periferia, partindo do que eles têm de melhor: diversidade, cooperação, força... No mesmo jornal acima citado li a contrapartida de Carlos Heitor Cony que exige um maior comprometimento do governo com o setor social. Sabe-se de antemão que essa história de atender a planos macro-econômicos (de encilhamento pelo capital estrangeiro volátil) em detrimento da administração micro, local, de bairro, vai acarretar um rompimento do tecido social. Para adiantar tal iminência, existem várias alternativas, pode-se começar dando mais espaço e importância às bibliotecas públicas e/ou criar campanhas de doação de livros. Outro passo complementar a esse é o de instigar junto aos empresários a idéia de criação de espaços culturais com nomes de familiares, ou pessoas ilustres de sua descendência. A atenção para a leitura, práticas culturais e artísticas é mencionada pelo sociólogo italiano Domênico de Masi como mola propulsora de uma nação. Esse crescimento de bens culturais, lúdico-educativos, sedimenta a própria idumentária e identidade de um país diante do mundo. O sociólogo enxerga importância em campanhas de alfabetização de adultos, por iniciativa de estudantes universitários.
- O não cumprimento dessas promessas (de futuro) nos colocará em uma situação caótica (aos menos favorecidos) e incômoda (empresários, governantes). Presenciamos a cada dia o crescimento da violência urbana (e o show biz criado na TV em torno disso) que muitas vezes, como nos casos de assaltos e furtos, se traduzem em distribuição de renda forçada. Lembro também sobre o mencionado contrato social, que prevê a obediência a condutas, normas sociais, mediante o zelo e proteção dados à pessoa (e o menor de rua? e a prostituição infantil?). O contrato social no Brasil da periferia é visto como contrato leonino.
- Dentro do ônibus, ouço uma notícia que expressa a preocupação das empresas automobilísticas com a segurança do pedestre. Será que eles farão air-bags externos? Isso resolve? Respondo, desde já, que tal medida nunca será viabilizada. O pedestre, pelo menos em Goiânia, é o último, o mais ameaçado e desrespeitado. O cidadão em um carro deve se lembrar de que o pedestre é ele mesmo, sem um carro. O ciclista e o motociclista estão lá se arriscando em duas rodas, não por opção, mas por falta de alternativas, talvez obrigação, trabalho, pressa, entregas, risco de vida...
Alenor Alves Jr. é estudante do 4o. ano de radialismo da UFG.
- Mande um e-mail para a direção do jornal.
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