O "bug" humano - e depois do ano 2000?
Vanessa Chaves Vieira
- Tive a idéia de escrever este texto num dia de depressão. Um daqueles dias em que você, sentindo-se abandonado pelo resto do mundo, tem a impressão de que tudo faz sentido segundo uma estranha lógica que você passa a perceber. Dias tristes, mas inspiradores.
- No caminho que estava fazendo, passei pelo relógio dos 500 anos e fiquei pensando em como é uma obra genial. Não por seu tema mais óbvio: a alusão ao pretenso descobrimento do Brasil, mas pelo fato de ser o próprio relógio uma alegoria do pensamento de nossa era. Ele capta e reflete uma das maiores angústias deste fim de século: nossa dificuldade de lidar com o tempo que, inexoravelmente, passa.
- Se as parabólicas, satélites e computadores nos mostram que o mundo não é tão grande assim, também nossos mundos particulares reduzem-se drasticamente. Já não podem nos conter nem abarcar a vida. E o que queremos é viver, ao máximo. Mas como fazer com que nosso tempo seja melhor aproveitado? Qual é a melhor??? (melhor o quê? "Forma"?) de viver...e como escolher entre tantas alternativas? Será que eu deveria estar ali e não aqui?
- Feiras à noite, festas que amanhecem o dia, cosméticos de longa duração, cocção em segundos por microondas, aviões a jato, entrevistas em tempo real, a pílula do dia seguinte, prazos de validade - sempre o tempo ditando as regras, e quanto mais tentamos poupá-lo, mais rápido ele parece passar. Já inventamos os cronômetros, o relógio biológico e os bancos 24 horas.
- Como é bizarro nos ver reclamando diante dos computadores por causa de uma conexão, por vezes internacional, que demora alguns minutos para ser feita!
- Lutar pela pena de morte ou para que um criminoso "apodreça na cadeia" é tentar frear o tempo de outra pessoa. As maiores punições são uma questão de tempo.
- Depressão: sensação de que o tempo está passando tão rápido que você não está vivendo como deveria.
- Estresse: o tempo está passando tão rápido que você não consegue mais acompanhá-lo.
- Pílulas para dormir: solução para a ansiedade de quem sente que o tempo não está passando tão rápido quanto deveria.
- Somos a geração anunciada por todas as outras. Aquela que vivenciaria o fim dos tempos. O grande questionamento, porém, é outro: o que vai ser de nós depois do ano 2000?
- Enquanto isso, o relógio dos 500 anos continua a fazer a contagem regressiva para o ano 00. Mas, e depois, quando já tivermos chegado lá?
Vanessa Chaves Vieira é estudante do 2o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para Vanessa Chaves Vieira ou para a direção do jornal.
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