Seqüência

Victor Hugo Gomes Lopes

A noite abraçava um sentimento disperso. Ocultava treze anos na carne fria. Ventava, talvez. Um barulhinho qualquer no silêncio rouco da noite.

Havia ali vida qualquer, de gente humana. Vida moça. Desmoçada. Coisa social, coisa de gente azeda de carne doce. Seriam os vivos tão vivos? Restou aquilo. Sobras do prazer sádico, um resto de meio ser. Como dizem às crianças : umas sementinhas. Algo suspeito?

- Foi um home, disse alguém.

No óbvio sempre cabe a certeza do mórbido. O desmedido sumidouro. Sedutor à platéia que se concentrou em volta da morte. A vida se sujava de tristeza. Uma crosta enxuta vermelha circundava a morada da inocência. Asfalto rubro-negro. Calava-se ali um original sem cópias. Uma história nada original.

Melhor nos pouparmos das miudezas do crime. Aquilo era o que era. O espaço se fazia gente. A censura do saco negro.

- Mamãe, os dotô qué quentá ela, né ? Causa da friage, prá mode num gripá, um pequeno tecia seu comentário.

Falar doía - as sumidas testemunhas. As sirenes apitavam, faziam notar sua incômoda presença, cabendo aos homens a responsabilidade do óbito. Não uma resenha apenas do fato. A família queria a totalidade - a essência da certeza. Não bastasse a ausência, havia a presença do assassino em inatingível lugar : o desconhecido. A dor precisa ser confirmada para ser verdadeira. Notícia bomba. O imprevisível fatal. As lágrimas do pai barreavam a cara suja. Haveria de ser mesmo sua menina-moça ? Os sonhos se encontram com a realidade numa encruzilhada.

A justeza não se presta a si própria, depende de justos maiores. Consumado o fato, remediava-se com a providência. Foram ao rastro do pervertido. Provas ? Um da platéia resolveu bater palmas. Sêmen e retrato falado. Polvorosa compreensão. A angústia do desespero. A incerta espera.

A autópsia velava necrofilia. Sandices da vida. Surpresas ? Talvez coubessem limpas no relato do laboratório. Havia de se descobrir suspeito que fosse. O amor aflora na turva existência humana. Lembrava um aroma. Um cadaverzinho de baunilha, duro e frio, feito o coração dos homens.

Lamentavam os que ficam. As lembranças são o jazigo da alma. Sabia o culpado criminoso o silêncio. O ledo engano : a tecnologia costuma delatar. Ficaram sentimentos ainda insepultos, viventes no enterro. Seriam os mortos tão vivos ? Talvez vingativos.

Um homem se remoía. Pensava na filha que se foi. A amante que por pouco teve. Cruel e doce vingança. O amor é a dialética do sofrimento. O penar usava roupas de luto, de pai, de vazio. Usava algemas.

A cidade se clareava de luz, o findar do dia. Alguém poderia se lembrar da noite. O dia é uma conseqüência. Seqüência...

Victor Hugo Gomes Lopes é estudante do 1o. ano de jornalismo da UFG.

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