Mister O-tário, o telespectador

Elisa Almeida França

Escrevo estas linhas motivada por duas razões. Uma delas, o texto do colega Luiz Roberto Cupertino, da edição de abril do Integração. A outra, fragmentos "Fantásticos" nossos de cada domingo. Concordo que talvez melhor fosse ignorar ambos. Já está esgotada a parcela de atenção que gostaríamos de destinar ao que se tem a dizer sobre aquele que foi objeto de divagações do filósofo intelectual. Quanto ao programa de televisão de maior audiência do fim do fim de semana, poderíamos compará-lo ao emissário de esgoto do mar de Ipanema, embora no Fantástico não haja estratégia para restauração de qualquer pilar de sustentação, tampouco pensa-se em interdição da "praia": o volume daquilo que vaza - de características bastante semelhantes para os dois casos que aqui se compara - é grande e incontrolável. Observemos, então, algumas "pérolas".

Luiz Roberto se põe em defesa de Carlos Massa (não, não citemos o maldito nome "artístico"!!), alegando que o espectador não é obrigado a assistir a seu programa, pois tem nas mãos o bom e velho controle remoto. Só não creio que haja assim tantas opções. Tem a Tiazinha, tem as novelas da Rede Globo e da Record. É quase claro que grande parte das pessoas que assistem à TV não estão interessadas em saber como o setor de infra-estrutura não é tão afetado pela crise financeira em uma entrevista de uma hora, e tampouco quer saber o que o Gilberto Gil tem a dizer sobre os problemas ambientais que afligem o mundo moderno. Elas (como se não estivéssemos no meio) querem se divertir, extravazar, ver a desgraça alheia para conseguir aceitar a sua própria. Querem ver o outro passar ridículo, e pôr-se distante desse papel. E querem um herói para salvá-las de seus mundanos problemas, para falar por elas e chamar de nomes feios as "autoridades".

Não acho que o problema se resolva tão facilmente como o ato de se mudar de canal. E acredito que o fenômeno se compara à lavagem cerebral de algumas seitas religiosas, que com o arrecadamento de seus dízimos reduzem as míseras economias de pessoas como aquele telespectador que gosta de assistir ao Ratinho. Não se pode simplesmente fingir que as coisas devem seguir um curso "natural", e que cada um tem o direito de decidir por aquilo que quer ver ou não na tela da sua televisão e que, assim, a solução está posta. Ele não vai mudar porque é muito mais fácil e confortável ter um deus e um apresentador de TV que olhem por tudo e por todos. E considerar sem importância o fato, seria como não ao menos se indignar com a falta de escolas, e com a falta de qualidade do ensino das escolas que não faltam.

No Fantástico, que parece distanciar-se mais que os outros ditos telejornais daquilo que se chama de Jornalismo, o que vemos é um show de variedades ocas, cujo claro e único objetivo é o de entreter a massa: Mister M, papo furado com adolescentes burgueses e flashes de notícias de fugas espetaculares de ladrões que nem de nosso país são. Pierre Bourdieu diz que a programação de TV esvazia o cidadão de qualquer consciência política. É maniqueísta e esconde as reais estruturas sociais quando compartilha com o meio da política a luta pela execração de bodes expiatórios.

Também faz dormir essa consciência política a forma como são apresentadas as "notícias". Por dois minutos, mostra-se algum escândalo no distante e numérico mundo econômico, ou no político, ou as dificuldades por que passa uma família em pleno sertão árido do Nordeste (não levando aqui em consideração o tom dramático com que essas matérias têm sido tratadas, que tudo o que faz é apelar emocionalmente pelo envolvimento do espectador). No passar dos rápidos minutos, quando se consegue extrair ou fazer brotar nos veios por que corre o sangue do cidadão, uma gota de indignação, logo em seguida ela se afoga, perdida, quando o mesmo sujeito fica sabendo os números de mortos e outras calamidades produzidas por alguma catástrofe meteorológica contra a qual não se pode lutar. Ou se, em seguida, a informação que recebe é sobre a visita do presidente da República a chefes de Estado pelo mundo afora, sobre alguma moda inventada em algum canto desse mesmo mundo, ou sobre um acontecimento peculiar na vida de um animalzinho qualquer. A essa altura, não há sequer uma remota lembrança daquela promissora gota.

Quanto ao Fantástico, uma pergunta, ou sugestão, ou uma pesquisa de opinião: por que o Mister bobão não ensina pra gente como dar um sumiço em el Cid Moreira? Só pra começar.

Elisa Almeida França é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.

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