Intolerância máxima
Eduardo Horácio Jr.
- Nas eleições do ano passado, um ponto dos vários programas de governo esteve presente em muitos candidatos pelo país: a operação "Tolerância Zero", que começou a ser aplicada na cidade de Nova York, em 1994. Trata-se de um programa que pretende combater as pequenas infrações na tentativa de inibir os grandes delitos.
- A operação, que alguns chamam de fascista, foi o maior sucesso do último verão. O principal argumento em defesa da operação é de que pode ser possível diminuir a criminalidade sem mexer na distribuição de renda. Era a solução sonhada pelas elites. Poderiam, enfim, ter mais segurança sem que seus patrimônios fossem tocados.
- Só que importando uma solução, prática tão comum quanto ineficaz no Brasil, os reais problemas da violência vão sendo camuflados. A "solução" ignora a especificidade da realidade brasileira nem leva em conta que o policial norte-americano é quase dez vezes mais bem remunerado que o brasileiro. Fora isso, outro grave problema pode ser reforçado com essa prática: o abuso policial. A ouvidoria da polícia paulista (em Goiás, a ouvidoria ainda engatinha) sempre indicou que o número de denúncias de abuso policial supera o de queixas por falta de policiamento.
- Sem contar, também, que o crime realmente perigoso hoje é o organizado, aquele que pertence a uma rede de corrupção ou a uma máfia. Reprimir apenas os pequenos infratores é ignorar quem está acima deles. Prioritariamente, deve-se punir o crime que vira empresa ou um "Estado" dentro do Estado, e não o pequeno delito, fruto, geralmente, da injustiça social.
- Outro ponto a ser lembrado é que retirar os chamados "delinqüentes" das ruas é tão eficaz como enxugar a pia com a torneira aberta. A distribuição de renda continua intacta. Dessa forma, "Tolerância Zero" pode virar "Intolerância Máxima".
Eduardo Horácio Jr. é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.
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