Noventa e oito, o ano que não quer terminar
Luís Cláudio Guedes
- O burburinho toma conta novamente dos corredores das universidades federais. Estamos de volta para um ano de crises anunciadas, o último do milênio e que traz consigo uma carga extra de dificuldades e sacrifícios, caso se dê crédito ao que a mídia nos serviu nos dias recentes.
- Ano novo, vida nova!, não traduz exatamente o sentimento deste retorno às salas de aula. Ao contrário do que o título sugere, nossa preocupação aqui não é a mesma que motivou o célebre "1968, O ano que não terminou" do jornalista mineiro Zuenir Ventura. Não há nenhum AI-5 a nos impor a urgência de uma contra-revolução. Nada de novo no front, exceto pela mesmice liberal do segundo mandato do professor Fernando Henrique.
- Aqui, nos intramos da academia, noventa e oito invade o espaço convencional do novo ano para a continuidade de um período letivo que deveria ter ficado circunscrito aos 365 dias da sua existência, coisa que acabou não acontecendo por obra e graça de uma greve dos funcionários e professores das instituições públicas do ensino superior. Foram necessários cem dias de paralisação para a obtenção de pífios resultados nos contracheques. As mazelas do ensino superior ficaram intocadas. Não posso ser contrário à greve por entendê-la um instrumento legítimo de pressão; questiono contudo, o senso de oportunidade e o seu poder de fazer subverter os calendários.
- O verão corre solto e belo neste paraíso tropical que é o Brasil; enquanto isso, algumas centenas de milhares de jovens tentam virar a página que noventa e oito representa em suas trajetórias de estudantes universitários. No atropelo destas grades curriculares produzidas a toque de caixa, muito se perde em aprendizagem pela necessidade de se cumprir prazos exíguos.
- Daquele 1968 que Ventura diz não ter acabado, são memoráveis as imagens dos estudantes franceses espalhando pelo mundo os ventos rebeldes da utopia. Esta mesma utopia que agora convalesce nas cabeças de uns poucos saudosistas, cedeu lugar ao pragmatismo deste fim de século. Naqueles cem dias de paralisação do ano passado, os estudantes permaneceram em compasso de espera, numa espécie de, licença para um pleonasmo, letargia vegetativa. Nada a questionar: nem à inflexibilidade do Regime nem à aventura dos grevistas. Péssimo exemplo para um País que agora se esmera em não perder o bonde da nova História.
- O calendário é uma invenção do homem desde que este renunciou à condição de primata e começou a se organizar socialmente. É uma convenção que prezamos, a ponto de nos causar estranheza o fato de um ano que não existe mais poder imiscuir-se nos domínios do que lhe sucedeu. No horizonte deste 1999, como já foi dito acima, estão as crises que noventa e oito não conseguiu resolver. Quem sabe não seja o cenário ideal para uma nova greve? Noventa e oito continua, atropelando nossa vida e nossos planos. Há um consolo, meus raros leitores, este é o verão que passamos juntos.
Luís Cláudio Guedes é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.
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