O garoto do ônibus e nossa cultura tola

Andrielly Andrade Freitas

Pode parecer chavão, mas mesmo assim continuo não concordando com os nossos valores culturais e estereótipos.

Um dia desses eu estava no ônibus e vi um garoto disfarçando para não carregar os materiais escolares de uma garota. Quando ela saiu, o amigo dele virou e perguntou por que ele não tinha levado os materiais para ela. Ele respondeu: "Ah, não! Ela era muito feia."

Sabe o que isso significa? Que os nossos valores ( já velhos, mas infelizmente ainda não esclerosados) continuam seguindo seu ciclo natural e que, normalmente, o filho desse garoto vai fazer o mesmo. Se ele não estivesse a fim de carregar nada e motivado por isso disfarçasse, eu entenderia a situação. Seria um ato de respeito às suas próprias vontades. Agora, agir com um pensamento excludente condicionado por um background machista já é outra coisa. Que cultura é essa que favorece os seguidores dos padrões estéticos estabelecidos? É a mesma que desfaz do pensamento feminista criando estereótipos fictícios em cima dele.

No livro "Da Sedução", Jean Baudrillard teoriza que a mulher é mais poderosa que o homem porque ela tem o poder da sedução e o homem tem o poder do concreto. Quando a mulher luta para ter os mesmos direitos que o homem ela deixa de ser feminina, perde o poder da sedução e consequentemente fica inferior ao homem. Ora, esse estereótipo de que feminista não é feminina é tão antiquado e absurdo quanto achar que comunista tem que ser sujo, mal vestido, com o cabelo maltratado, a barba por fazer e comer criancinhas! Estereótipos são "contos de fadas" que, infelizmente, são interiorizados pelas pessoas.

Sei que muitos devem estar achando que o que eu quero passar é que se deve segurar os objetos de uma mulher, não importando a estética dela. Não é isso! Se você quiser fazer algo por alguém, aja por desejo próprio e sem distinção. Não privilegie as "classes" que a sociedade ocidental lhe passa como as principais. Ou melhor, não divida em classes.

Andrielly Andrade Freitas é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.

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