A falsa idéia de pessimismo em Balzac

Gilberto Gomes Pereira

Entre 1835 e 1843, o escritor francês Honoré de Balzac escreveu suas "ilusões perdidas". Um tempo muito longo - 155 anos - se passou até que a comunicação pudesse se estabelecer entre mim e o suposto desiludido escritor. A obra de Balzac tem como fulcro os ignóbeis meios utilizados pelas pessoas para chegar a um fim, estabelecendo relações sociais, como meros mecanismos de ascensão e de interesses individuais. Em tais relações, o jogo é entre a inteligência despreparada, acumulada de ingenuidade moral, e o espírito argucioso e "maquiavélico" do capitalismo. Por um lado, estão Luciano de Rubempré e David Sechard, dois jovens talentosos e inteligentes, que traçam seus planos de vida pela aparência das coisas. Sonham, têm certeza da vitória, acreditam na benevolência e na sinceridade das pessoas para atingir seus objetivos. Apesar de ser um burguês ambicioso que tenta se transformar em um nobre, para usufruir das regalias e dos cortejos da aristocracia e ser um escritor bem-sucedido, Luciano é um ingênuo na arte de viver, passa de um possível "manipulador" para um "manipulado" que tudo faz a partir da intenção de outros. Por outro lado, estão vários personagens que projetam suas vidas por detrás das aparências e que fazem de pessoas como David e Luciano trampolins para um salto adiante em suas carreiras.

Balzac trabalha toda a sua obra com relações conturbadas e sempre desfavoráveis aos "sonhadores". Culpa os homens de cultura, os intelectuais, os jornalistas. Chega a dizer que "todo escritor nutre no coração um monstro que, semelhante à tênia no intestino, devora os sentimentos à medida que desabrocham"(pág.254). As ilusões vão perdendo espaço e, no final, prevalecem as tramas bem feitas dos homens "sem-caráter". Até Luciano se deixa convencer pelos argumentos de um "padre" (não sei se era, de fato, um padre) de não se iludir com os princípios da moral cristã.

Muitas pessoas que leram esse livro de Balzac dizem que o escritor era um pessimista, um frustrado. Um homem que se desiludiu com a sociedade de sua época e que resolveu investir num romance autobiográfico para compensar sua frustração de outras tentativas intelectuais. O romance "As Ilusões Perdidas" é uma espécie de autobiografia, sim, mas Balzac não é um pessimista, tampouco um frustrado. Ele apenas traçou o perfil de uma sociedade que aspira ao capitalismo e ao poder, mas que, ao mesmo tempo, está sob pressão de uma moral que aceita a falsidade como regra do jogo. Porém, não admite que isto seja posto em pratos limpos. A verdade depende de como a coisa aparece ao sujeito que conhece, é um juízo de valor, logo é o que aparenta ser. Para a maioria das pessoas, como Luciano e David, a vida é feita das relações que se deixam transparecer. Mas outros conseguem ver além do protótipo necessário e percebem uma verdadeira engrenagem dentro desse padrão social e se valem desse mecanismo, o espírito capitalista, o cinismo social, para a realização de suas empresas. Balzac percebeu como isso funciona e mostrou em seu livro que, por trás do bom cristão, há um diabinho como conselheiro e que as ilusões fazem parte desse jogo, pois sem elas não haveria os perdedores e nem os que se passam por "cordeirinhos". Para realizarem seus negócios de "lobo". Daí a dificuldade de muitos aceitarem a vida como ela é, porque mentem para criar e afirmar sua auto-imagem. Confirmar a perversidade de seu "semelhante" seria assinar sua própria sentença. Portanto, os traços que determinam a imagem da sociedade capitalista (da moral cristã) são apenas os que aparentam ser. Mas, em qualquer segmento social, os sentimentos devorados e a falsa devoção far-se-ão sua espinha dorsal, deixando as aparências apenas como seu cartão de visitas. O que Honoré de Balzac escreveu não é pessimismo e nem frustração, apesar do forte conteúdo idiossincrático que há em sua obra.

Gilberto Gomes Pereira é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.

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