A morte de João Carlos

Nazareth L. de Paula

João Carlos acorda cedo. O despertador interrompe seu bom e leve sono. Como sempre, ele, então, se levanta e toma o café. Em alguns minutos, está no ponto de ônibus, o dever lhe espera: é preciso trabalhar.

Ao entrar no ônibus, João Carlos diz "bom dia", mas não há resposta. Só se ouve risos. Atualmente, tal atitude é considerada loucura ou ousadia.

Diante de tanta indiferença, ele percebe que está só - sozinho na multidão. Há muito, perdeu sua família e, também, seu cão. E agora, o mundo se lhe apresenta como um campo de batalhas. O outro é um obstáculo, é preciso empurrá-lo. Empurrar e ser empurrado, essa é a nova ordem.

Neste instante, João Carlos decide não mais trabalhar. Desiste de tudo, resolve apenas caminhar, caminhar, sem destino...

Com as mãos no bolso, ele caminha devagar. Observa as pessoas seguirem os mais diversos caminhos, cada uma com sua boca e seu nariz. O que mais lhe chama atenção é a pressa. Todos têm pressa, menos ele. É impossível alcançá-los.

De súbito, João Carlos pára. Não adianta continuar, nem tentar compreender o mundo. Sua solidão é pesada demais. Em vão procurara o amor, a amizade (estes, são como pássaros: voam, quando tentamos agarrá-los).

Em frente ao viaduto, a morte lhe acena. Sorrindo, João Carlos vai ao seu encontro e, em meio à multidão de carros, seu corpo se despedaça.

Ninguém percebe sua morte, assim como ninguém o notou em vida. Mas logo a noite vem, e do alto, lágrimas caem. São as estrelas que, emocionadas, choram a morte de João Carlos.

P.S.: João Carlos representa o gênero humano.

Nazareth L. de Paula é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.

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