Liberdade é direito de escolha
Jardel Sebba Filho
- Curioso que um caso de uma menina de dez anos da cidade de Israelândia leve o Estado de Goiás a receber projeção nacional. Curioso, mas útil no sentido de ressuscitar uma discussão que costuma ficar acobertada por posições carentes de uma análise mais aprofundada. A menor em questão, C.B.S., estuprada por dois vizinhos e que agora, grávida, divide a opinião pública nacional em relação ao aborto que postula realizar. Quando você estiver lendo esse artigo, a situação já vai ter se definido mas, nesse momento em que escrevo, ainda prevalece a dúvida e a discussão entre prós e contras. Sem qualquer requinte de crueldade, penso que o filho que C.B.S. carrega é apenas um detalhe numa discussão muito maior que deve ser posta em voga.
- Liberdade é, entre outras coisas, direito de escolha. Ninguém defende o aborto. O que se defende é o direito de recorrer ao aborto quando se julgar necessário. A mulher ignorante não teria condições de avaliar isso, na mesma proporção que essa mesma mulher não tem condições de ter um mínimo de responsabilidade em seu planejamento familiar. As instituições religiosas falam em direito à vida. Mas o que acontece com uma criança que vem ao mundo em situações inviáveis, tanto econômica quanto socialmente? Algum padre acompanha? A gente defende a vida, uma vida baseada num pezinho já formado ao redor de algumas colheres de células, mas e a qualidade de vida? A igreja não permite matar. Mas quantos ela leva para casa e cuida? Sentar em berço esplêndido e julgar o que se pode ou não fazer, sem assumir nenhum tipo de responsabilidade social sobre isso, é muito cômodo. E era essa mesma Igreja que queimava gente viva em fogueira, não faz muito tempo. É defesa de que mesmo? Vida, né?
- O ex-presidente norte-americano George Bush, junto com sua esposa Barbara, era ferrenho defensor da adoção como meio de solucionar o problema. Tão ferrenho que decidiu não levar nenhuma criança para a sua própria casa. Procure os centros de adoção de qualquer capital do país e confira o que acontece com as crianças que esperam uma família e que tem mais de dois anos de idade. Elas não são exatamente brancas ou apresentam algum tipo de deficiência física ou psíquica.
- Aborto não é solução. É um instrumento que deve estar disponibilizado socialmente para que se evite que crianças indesejadas venham ao mundo. Não é método contraceptivo, mas algo válido enquanto não se trabalha, a longo prazo, métodos educativos de planejamento e estruturação familiar. Preocupe-se com as vidas que estão a sua volta, com aquelas que você torna menos ou mais felizes. Deixe a do feto em paz, principalmente se você for dar as costas a ela depois que vier ao mundo. Se, enquanto médico, pai, mulher ou seja lá o que for, você for contra, não faça. Mas permita àqueles que querem se utilizar desse instrumento que o façam em paz. O Brasil realiza hoje, e isso é fato, aproximadamente um milhão e meio de abortos clandestinos, que não geram receita para o Estado, não oferecem um mínimo de condições de segurança para as mulheres e não sofrem nenhum tipo de controle oficial. Graças a isso, e isso também é fato, duzentos e cinqüenta mil mulheres morrem por ano em decorrência da prática abortiva ilegal.
- Muito mais gente morre de câncer de pulmão e ninguém toma uma providência.
XXXXX
- Parabéns ao Guillermo Rivera pelo excelente artigo ("Vai mais falar de esportes, jacu!!!") publicado na edição de aniversário do INTEGRAÇÃO.
- Você que não gostou do meu último artigo, não revide uma agressão que não estava destinada a você. Não me dê uma importância que eu não tenho. Aprenda a conviver com opiniões alheias, você vai precisar, por mais contundentes que elas pareçam. Não escrevo para aparecer, e sim para ser lido. E quanto a isso, muito obrigado, eu não tenho do que reclamar...
Jardel Sebba Filho é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para Jardel Sebba Filho ou para a direção do jornal.
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