Sasha, Beatrice e o tic-tac do relógio

Luís Cláudio Guedes

O que possuem em comum a apresentadora Xuxa Meneghel e o colunista Jardel Sebba Filho aqui do nosso INTEGRAÇÃO? Um relógio biológico. Xuxa exibiu (e como exibiu) a cria tão publicamente acalentada, ao passo que o nosso Arnaldo Jabor do cerrado antevê as idas e vindas na estrada cultural da sua pretendida Beatrice. Sebba diz encarar a paternidade como uma oportunidade a mais para compreender a mulher, nossa companhia tão enigmática e necessária. Puro subterfúgio, numa moldura de ironia.

Sashas e Beatrices atendem à desesperada necessidade que temos de continuar para além de nós mesmos – nada de novo nem de hoje. Ainda na contramão, Beatrice talvez viesse a se deliciar em ser súdita basbaque de uma majestade midiática que ainda reina nas tardes de domingo. O tempo não pára. Tic-tac.

Conto com a sua boa vontade, ó leitor, cobaia das imperfeições do meu texto, para seguir em frente com a temporada do "falando um pouco de mim", inaugurada por Sebba. A coleção do Monteiro Lobato que Beatrice supostamente faria em picadinhos suscitou em mim boas lembranças e intenções. A minha Ana Luísa, anônima graças a Deus, vai receber daqui a alguns seis ou oito anos um exemplar de "O Sítio do Pica-pau Amarelo". Será um ritual e o fim de um ciclo.

Quando tinha mais ou menos essa idade, tomei contato com o maravilhoso mundo do faz-de-conta lobatiano. Equivaleu a um choque de mil volts. A solidão da fazendinha em que morava no sertão mineiro foi povoada pela riquíssima trupe do "Sítio". A minha insaciável curiosidade por todo pedaço de papel que contivesse letras encontrou ali um porto seguro. Quis mudar para o "Sítio", literalmente.

Meus pais se viram apurados com as perguntas insistentes que eu lhes fazia. Mitologia grega, definitivamente, era demais para a limitação dos seus conhecimentos. Aprendi, enfim, e a duras penas, que quimera não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Faço aqui uma reverência ao texto redondinho de Jardel e à sua Beatrice: não há sonho impossível.

Para Lobato, uma homenagem no cinquentenário de sua morte. Um país que possui o legado da sua obra infanto-juvenil nada fica devendo à literatura mundial. Do Monteiro engajado que bradava contra o modernismo e a favor do petróleo nas terras do Jeca-Tatu não conheço muito. O "Sítio", entretanto, é parte que expressa bem o completo. O autor que desejava escrever livros "onde as crianças pudessem morar" deixou uma frase interessante a respeito dos sonhos: "Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira – mas já tantos sonhos se realizaram que não temos o direito de duvidar de nenhum".

Nossos rebentos são de um mundo que mete medo, pela velocidade com que tudo acontece. Mas há um alento: toda vez que uma criança se sente maravilhada com a fantasia de Lobato, a eternidade resiste à tentação de querer ser breve. Ana Luísa, Sasha e a teimosinha Beatrice (quando chegar) precisam acreditar em fadas. Se algum dia duvidarmos disto, é preferível que desliguemos nossos relógios.

Luís Cláudio Guedes é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.

Mande um e-mail para Luís Cláudio Guedes ou para a direção do jornal.

Primeira - Anterior - Próxima - Última

© 1997 1998 1999 Jornal Integração Todos os direitos reservados
1