A dialética da tragédia ou a insistência da auto-ajuda
Luiz Roberto Cupertino
- Estava eu, há alguns dias, em uma livraria de um shopping da cidade, procurando, tarefa surrealista, diga-se de passagem, por um livro do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Procurei, procurei, procurei. Não achei o livro. O mais impressionante: quase não achei a seção de livros de filosofia. Depois de muita labuta é que fui, já exausto, encontrar a empobrecida seção, numa prateleira, cujas dimensões não ultrapassam o deserto africano do meu criado-mudo, escondida, talvez envergonhada, timorata diante da enorme esfinge que lhe fazia frente: tomos incontavelmente numerosos de livros de auto-ajuda. Tive uma certa náusea, senti-me um estrangeiro, limpei o suor frio que me descia pelas faces ruborizadas, hesitei. Fiz-me a pergunta visceral: será, que nos fins de um século cuja festa universal da morte, para roubar as palavras de Thomas Mann, se erigiu quase que constantemente, surgirá, lânguida e tímida, a sede por conhecimento e discernimento? Ou melhor, será que o grito de socorro é hoje mais urgente do que a predisposição a dar valor aos homens que verdadeiramente escreveram algo plausível? Indeciso, resolvi deixar a livraria, alegando ao funcionário que me auxiliava que minha mãe me esperava já há algum tempo, deveria estar nervosa, talvez segurasse um sorvete que pedi.
- Posteriormente, achei o livro num sebo. Lugar de livros velhos, usados, já nem tanto pretendidos. Mas a pergunta acima me atordoava. A literatura de ajuda, a auto-promoção, a fome por enriquecimento precoce, seriam esses os fatores principais? Talvez. Cheguei à conclusão de que o problema é um pouco mais complexo. Lembrei-me de Freud, Nietzsche, Marx, Jesus Cristo. Todos eles foram, em parcelas diferentes, responsáveis pela orfandade geral que se instalou no seio da humanidade, incitando-a a adotar como pai oportunistas. Levou-a a preferir Lair Ribeiro a Wittgenstein, Roberto Shinyashiki a Martin Heidegger, Brian Weiss a Hegel. O fato é que todos eles ( Freud, Marx, Nietzsche, Cristo) foram ficando pelo caminho histórico do tempo avassalador. Foram sendo engolidos pelo pluralismo despótico que se assolou nas terras distantes do mundo em desenvolvimento e do próprio velho continente, cuspindo a cultura e a moeda yankee. Nossos intelectuais são americanos, veja Arnaldo Jabor. Nossos jovens são americanos. E a grande contradição é que não somos a América. Somos do sul. Freud foi esquecido em nome de uma ética cuja essência é a obediência e a responsabilidade, Marx foi sugado pela parafernália capitalista que varreu o socialismo da Terra (admito que a crítica do fetichismo da mercadoria e da socialização pelo valor são ainda atuais, mas poucos percebem o caminho certo para usar o marxismo hoje, talvez Paulo Arantes ou Robert Kurz). Nietzsche foi mal interpretado e é hoje, em vez de ser uma corrente otimista da evolução humana, espectador melancólico da humanidade que pede ajuda. Estes os três grandes pensamentos que mexeram com o século. Cristo morreu. Deus morreu. Já não vejo forças na Igreja. Girard é visto como um louco visionário. O dogmatismo cristão não se adapta de forma alguma à libido exigida pelas propagandas pirotécnicas que instigam o homem a virar um consumidor inconseqüente. Instala-se o drama. Acredita-se que houve momento mais caracterizado e simples de se analisar, justamente pela clareza das ideologias: de um lado os globalizantes (tecnocratas), de outro os humanizantes (socioculturais). Mas a habilidade mental é canhestra. A nova ordem diz que para se vencer, ou seja, consumir, é preciso ter dinheiro. Se não tem dinheiro, pede-se ajuda. As prateleiras estão cheias.
- É louco então quem procura o conhecimento? Ora, não sejamos tolos. Se se compreende o motivo para tanto pedido de socorro, compreende-se que é preciso pensar a saída. Só se desespera quem não compreende os fatos. E diante do desespero não adianta ler auto-ajuda. É passageiro, como alucinógeno, e algo que não lhe diz respeito, é exterior à sua própria capacidade de compreender as vicissitudes cotidianas. Vive-se num mundo onde é preciso ter conhecimento para segurar a barra, mas o dinheiro é o ópio e o imperativo categórico da humanidade, não se podendo viver sem ele. O discernimento para sobreviver nesta dialética mundana vem do conhecimento do processo acontecido. Está escrito em você mesmo, e livros verdadeiros podem ajudá-lo a descobrir a razão. Continuarei acreditando nisso, e no homem. O desespero e o pessimismo são sentimentos negativos, pretensos conhecedores do futuro. Sou anti-Carlos Heitor Cony e anti-Shoppenhauer, sou otimista. Estarei pronto a mudar minha visão de mundo, caso alguém me procure com argumentos, pois sempre cedo e tenho prazer em ser vencido, já dizia Fernando Pessoa, quando quem me vence é a Razão, seja quem for seu procurador.
- Se os livros de auto-ajuda trazem conforto, não me oponho. Não os leio. Não me sinto desconfortável. A melancolia pós-moderna não pode ser algo que alguns momentos de introspecção não curem. Mas para isso é preciso desabitar a superfície da pele, a roupa, o penteado, e mergulhar no próprio Eu. Algo indesejável, compreendo. É um caminho mais tortuoso. Mas quem sabe de você e suas aspirações senão você mesmo? Não é preciso alimentar essa indústria, não. Ou daqui a algum tempo teremos que comprar livros bons nas ruas empoeiradas e inóspitas dos sonhos que cultivaremos durante a noite, que serão tão constantes a ponto de confundirmos sonho e realidade.
Luiz Roberto Cupertino é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para Luiz Roberto Cupertino ou para a direção do jornal.
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